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12/12/2013
Do "Nicán Mopohua", relato do escritor indígena do século dezesseis Dom Antônio Valeriano ("Nican Mopohua", 12ª edición, Buena Prensa, México, D.F., 1971, p. 3-19.21) (Séc. XVI)
A voz da rola se escuta em nossa terra
Num sábado de mil e quinhentos e trinta e um, perto do mês de dezembro, um índio de nome Juan Diego, mal raiava a madrugada, ia do seu povoado a Tlatelolco, para participar do culto divino e escutar os mandamentos de Deus. Já amanhecia, quando chegou ao cerrito chamado Tepeyac e escutou que do alto o chamavam:
- Juanito! Juan Dieguito!
Subiu até o cimo e viu uma senhora de sobre-humana grandeza, cujo vestido brilhava como o sol, e que, com voz muito branda e suave, lhe disse:
- Juanito, menor dos meus filhos, fica sabendo que sou Maria sempre Virgem, Mãe do verdadeiro Deus, por quem vivemos. Desejo muito que se erga aqui um templo para mim, onde mostrarei e prodigalizarei todo o meu amor, compaixão, auxílio e proteção a todos os moradores desta terra e também a outros devotos que me invoquem confiantes. Vai ao Bispo do México e manifesta-lhe o que tanto desejo. Vai e põe nisto todo o teu empenho.
Chegando Juan Diego à presença do Bispo Dom Frei Juan de Zumárraga, frade de São Francisco, este pareceu não dar crédito e respondeu:
- Vem outro dia, e te ouvirei com mais calma.
Juan Diego voltou ao cimo do cerro, onde a Senhora do céu o esperava, e lhe disse:
- Senhora, menorzinha de minhas filhas, minha menina, expus a tua mensagem ao Bispo, mas parece que não acreditou. Assim, rogo-te que encarregues alguém mais importante de levar tua mensagem com mais crédito, porque não passo de um joão-ninguém.
Ela respondeu-lhe:
- Menor dos meus filhos, rogo-te encarecidamente que tornes a procurar o Bispo Amanhã dizendo-lhe que eu própria, Maria sempre Virgem, Mãe de Deus, é que te envio.
Porém no dia seguinte, domingo, o Bispo de novo não lhe deu crédito e disse ser Indispensável algum sinal para poder-se acreditar que era Nossa Senhora mesma que o enviara. E o despediu sem mais aquela.
Segunda-feira, Juan Diego não voltou. Seu tio Juan Bernardino adoecera gravemente e à noite pediu-lhe que fosse a Tlatelolco de madrugada, para chamar um sacerdote que o ouvisse em confissão.
Juan Diego saiu na terça-feira, contornando o cerro e passando pelo outro lado, em direção ao Oriente, para chegar logo à Cidade do México, a fim de que Nossa Senhora não o detivesse. Porém ela veio a seu encontro e lhe disse:
- Ouve e entende bem uma coisa, tu que és o menorzinho dos meus filhos: o que agora te assusta e aflige não é nada. Não se perturbe o teu coração nem te inquiete coisa alguma. Não estou aqui, eu, tua mãe? Não estás sob a minha sombra? Não estás porventura sob a minha proteção? Não te aflija a doença do teu tio. Fica sabendo que ele já sarou. Sobe agora, meu filho, ao cimo do cerro, onde acharás um punhado de flores que deves colher e trazer-mo.
Quando Juan Diego chegou ao cimo, ficou assombrado com a quantidade de belas rosas de Castela que ali haviam brotado em pleno inverno; envolvendo-as em sua manta, levou-as para Nossa Senhora. Ela lhe disse:
- Meu filho, eis a prova, o sinal que apresentarás ao Bispo, para que nele veja a minha vontade. Tu é o meu embaixador, digno de toda a confiança.
Juan Diego pôs-se a caminho, agora contente e confiante em sair-se bem de sua missão. Ao chegar à presença do Bispo, lhe disse:
- Senhor, fiz o que me ordenaste. Nossa senhora consentiu em atender o teu pedido. Despachou-me ao cimo do cerro, para colher ali várias rosas de Castela, trazê-las a ti, entregando-as pessoalmente. Assim o faço, para que reconheças o sinal que pediste e assim cumpras a sua vontade. Ei-las aqui: recebe-as.
Desdobrou em seguida a sua branca manta. À medida em que as várias rosas de Castela espalhavam-se pelo chão desenhava-se no pano e aparecia de repente a preciosa imagem de Maria sempre Virgem, Mãe de Deus, como até hoje se conserva no seu templo de Tepeyac.
A cidade inteira, em tumulto, vinha ver e admirar a sua santa imagem e dirigir-lhe suas preces. Obedecendo à ordem que a própria Nossa Senhora dera ao tio Juan Bernardino, quando devolveu-lhe a saúde, ficou sendo chamada como ela queria: "Santa Maria sempre Virgem de Guadalupe".
15/08/2013
Da Constituição Apostólica Munificentíssimus Deus (AAS42 [1950], 760-762. 767-769) (Séc.XX), do papa Pio XII
Teu corpo é santo e cheio de glória
Nas homilias e orações para o povo na festa da Assunção da Mãe de Deus, santos padres e
grandes doutores dela falaram como de uma festa já conhecida e aceita. Com a maior clareza a
expuseram; apresentaram seu sentido e conteúdo com profundas razões, colocando
especialmente em plena luz o que esta festa temem vista: não apenas que o corpo morto da
Santa Virgem Maria não sofrera corrupção, mas ainda o triunfo que ela alcançou sobre a morte
e a sua celeste glorificação, a exemplo de seu Unigênito, Jesus Cristo.
São João Damasceno, entre todos o mais notável pregoeiro desta verdade da tradição,
comparando a Assunção em corpo e alma da Mãe de Deus com seus outros dons e privilégios,
declarou com vigorosa eloqüência: “Convinha que aquela que guardara ilesa a virgindade no
parto, conservasse seu corpo, mesmo depois da morte, imune de toda corrupção. Convinha que
aquela que trouxera no seio o Criador como criancinha fosse morar nos tabernáculos divinos.
Convinha que a esposa, desposada pelo Pai, habitasse na câmara nupcial dos céus. Convinha
que, tendo demorado o olhar em seu Filho na cruz e recebido no peito a espada da dor, ausente
no parto, o contemplasse assentado junto do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse tudo o
que pertence ao Filho e fosse venerada por toda criatura como mãe e serva de Deus”.
São Germano de Constantinopla julgava que o fato de o corpo da Virgem Mãe de Deus estar
incorrupto e ser levado ao céu não apenas concordava com sua maternidade divina, mas ainda
conforme a peculiar santidade deste corpo virginal: “Tu, está escrito, surges com beleza (cf. Sl
44,14); e teu corpo virginal é todo santo, todo casto, todo morada de Deus; de tal forma que ele
está para sempre bem longe de desfazer-se em pó; imutado, sim, por ser humano, para a excelsa
vida da incorruptibilidade. Está vivo e cheio de glória, incólume e participante da vida
perfeita”.
Outro antiqüíssimo escritor assevera: “Portanto, como gloriosa mãe de Cristo, nosso Deus
salvador, doador da vida e da imortalidade, foi por ele vivificada para sempre em seu corpo na
incorruptibilidade; ele a ergueu do sepulcro e tomou para si, como só ele sabe”.
Todos estes argumentos e reflexões dos santos padres apóiam-se como em seu maior
fundamento nas Sagradas Escrituras. Estas como que põem diante dos olhos a santa Mãe de
Deus profundamente unida a seu divino Filho, participando constantemente de seu destino.
De modo especial é de lembrar que, desde o segundo século, os santos padres apresentam a
Virgem Maria qual nova Eva para o novo Adão: intimamente unida a ele – embora com
submissão – na mesma luta contra o inimigo infernal (como tinha sido previamente anunciado
no proto-evangelho [cf. Gn 3,15]), luta que iria terminar com a completa vitória sobre o pecado
e a morte, coisas que sempre estão juntas nos escritos do Apóstolo das gentes (cf. Rm 5 e 6;
1Cor 15,21-26.54-57). Por este motivo, assim como a gloriosa ressurreição de Cristo era parte
esencial e o último sinal desta vitória, assim também devia ser incluída a luta da santa Virgem,
a mesma que a de seu Filho, pela glorificação do corpo virginal. O mesmo Apóstolo dissera:
Quando o que é mortal se revestir de imortalidade, então se cumprirá o que foi escrito: A
morte foi tragada pela vitória (1Cor 15,54; cf. Os 13,14).
Por conseguinte, desde toda a eternidade unida misteriosamente a Jesus Cristo, pelo mesmo
desígnio de predestinação, a augusta Mãe de Deus, imaculada na concepção, virgem
inteiramente intacta na divina maternidade, generosa companheira do divino Redentor, que
obteve pleno triunfo sobre o pecado e suas conseqüências, ela alcançou ser guardada imune da
corrupção do sepulcro, como suprema coroa dos seus privilégios. Semelhantemente a seu Filho,
uma vez vencida a morte, foi levada em corpo e alma à glória celeste, onde, rainha, refulge à
direita do seu Filho, o imortal rei dos séculos.
16/11/2012
Da Encíclica Ecclesiam Dei, de Pio XI, papa
(AAS 15[1923], 573.576-577) (Séc.XX)
Derramou o seu sangue pela unidade da Igreja
A Igreja de Deus por admirável desígnio foi constituída de forma a ser, na plenitude dos
tempos, semelhante a imensa família, abraçando a totalidade do gênero humano; e, por dom de
Deus, sabemos ser ela visível não só por suas notas principais, como também pela unidade
universal.
De fato, Cristo Senhor não apenas confiou somente aos apóstolos o dom que ele próprio
recebera do Pai, ao dizer: Todo o poder me foi dado no céu e na terra; ide, pois, ensinai a todos
os povos (Mt 28,18-19); mas também quis que o grupo dos apóstolos fosse em sumo grau um
colégio só, duplamente ligado por estreito vínculo: intrinsecamente pela mesma fé e caridade,
infundida em nossos corações pelo Espírito Santo(cf. Rm 5,5); extrinsecamente, pelo governo
de um só sobre todos, ao entregar o principado a Pedro qual perpétuo princípio e visível
fundamento da unidade.
Para que se mantivesse para sempre esta unidade e concórdia, Deus de suma providência
consagrou-a com o sinete da santidade e do martírio.
Este grande louvor obteve-o o arcebispo de Polock, Josafá, de rito eslavônio oriental; com toda
a razão o saudamos como honra insigne e coluna dos eslavos orientais. Com efeito, mal se
encontra quem tenha mais ilustrado o nome deles ou servido melhor a sua salvação, que este
pastor e apóstolo, mormente ao derramar o sangue pela unidade da santa Igreja. Além disto,
sentindo-se divinamente impelido à reintegração universal na unidade santa, compreendeu que
a melhor contribuição a dar seria guardar o rito oriental eslavônio e o monaquismo basiliano na
unidade da Igreja universal.
Entrementes, solícito em primeiro lugar pela união de seus concidadãos com a cátedra de Pedro,
buscava por toda a parte com empenho todos os argumentos que pudessem promovê-la ou
confirmá-la. De modo especial, folheava assiduamente os livros litúrgicos usados pelos
orientais e pelos dissidentes, segundo as ordenações dos santos padres. Preparado tão
diligentemente, iniciou o trabalho de refazer a unidade, com tanto vigor e suavidade e com
tanto êxito, que pelos próprios adversários foi chamado de “raptor de almas”.
Fonte:
Liturgia das Horas
20/09/2012
Da última Exortação de Santo André Kim Taegón, presbítero e mártir
(Pro Corea. Documenta., ed. Mision Catholique Séoul, Séoul-Paris 1938, Vol. I,74-75)
(Séc.XIX)
A fé é coroada pelo amor e a perseverança
Meus caríssimos irmãos e amigos, considerai como Deus no princípio dos tempos
dispôs os céus, a terra e todas as coisas; meditai também com que especial intenção
criou o ser humano à sua imagem e semelhança.
Se, pois, nesta vida de perigos e miséria, não reconhecermos o Criador, de nada nos
servirá termos nascido e continuar vivendo. Já neste mundo pela graça divina, pela
mesma graça recebemos o batismo, entrando no seio da Igreja e tornando-nos discípulos
do Senhor. Mas, trazendo assim o precioso nome de cristãos, de que nos servirá tão
grande nome, se na realidade não o formos? Seria inútil termos nascido e ingressado na
Igreja se traíssemos o Senhor e a sua graça; melhor seria não termos nascido do que,
recebendo a sua graça, pecarmos contra ele.
Considerai o agricultor ao lançar a semente no campo: primeiro, prepara a terra com o
suor do seu rosto e depois joga a preciosa semente; chegando o tempo da colheita,
alegra-se de coração com as espigas cheias, esquecendo seu trabalho e suor, e dançando
de alegria; se porém as espigas permanecem vazias não sendo mais que palha e casca, o
agricultor deplora o duro labor com que suou, sentindo-se tanto mais desesperado
quanto mais trabalhou.
De modo semelhante, cultiva o Senhor a terra como seu campo, sendo nós os grãos de
arroz; rega-nos com o seu sangue na sua Encarnação e Redenção para que possamos
crescer e amadurecer; quando, no dia do juízo, vier o tempo da colheita, quem pela
graça for achado maduro gozará o reino dos céus como filho adotivo de Deus. Quanto
aos outros, que não amadureceram, tornar-se-ão inimigos, punidos para sempre, embora
também tenham se tornado filhos adotivos de Deus pelo batismo.
Irmãos caríssimos, lembrai-vos de que nosso Senhor Jesus, descendo a este mundo,
sofreu inúmeras dores e tendo fundado a Igreja por sua paixão, ele a faz crescer pelos
sofrimentos dos fiéis. Apesar de todas as pressões e perseguições, os poderes terrenos
não poderão prevalecer: da Ascensão de Cristo e do tempo dos apóstolos até hoje, a
santa Igreja continua crescendo no meio das tribulações.
Também nesta nossa terra da Coréia, durante os cinqüenta ou sessenta anos em que a
santa Igreja se estabeleceu aqui, os fiéis sempre sofreram perseguições. Hoje acendeu-se
de novo a perseguição; muitos amigos são, como eu, lançados nos cárceres, enquanto
também sofreis tribulações. Unidos num só corpo, como não ficarão tristes os nossos
corações? Como, humanamente, não experimentarmos a dor da separação?
Deus, porém, como diz a Escritura, cuida de cada cabelo de nossa cabeça, e o faz com
toda a sabedoria; portanto, como não considerar esta perseguição senão como permitida
pelo Senhor, ou mesmo, seu prêmio ou, até, sua pena?
Abraçai, pois, a vontade de Deus, combatendo de todo o coração pelo vosso chefe Jesus
e vencendo o demônio, já vencido por ele.
Eu vos peço: não deixeis de lado o amor fraterno, mas ajudai-vos uns aos outros,
perseverando até que o Senhor tenha piedade de nós e afaste a tribulação.
Aqui somos vinte e, pela graça de Deus, todos ainda estão bem. Caso algum de nós
venha a morrer, peço não negligenciardes a sua família. Muitas coisas teria ainda a
dizer-vos, mas como posso exprimi-las em tinta e papel? Por isso vou terminar minha
carta. Aproximando-se para nós a luta, peço-vos finalmente que caminheis com
fidelidade, de modo que no céu nos possamos congratular. Deixo-vos aqui meu ósculo
de amor.
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