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02/09/2015

Alcuin [ou Alcuíno] de York (735 - 804)

 Prelado, professor e filósofo anglo-saxônico nascido em York, na Nortúmbria, região ao sul do rio Tâmisa, que ia desde o rio Humber até o rio Forth, líder do reativação cultural da Idade Medieval na Europa. Estudou na Escola Catedral de York e formou-se na escola episcopal de Jarrow, fundada por Beda o Venerável. Posteriormente lecionou em York durante quinze anos e ali criou uma das melhores bibliotecas da Europa, tendo transformado a Escola em um dos maiores centros do saber.  Chamado (782) pelo imperador Carlos Magno para cuidar dos interesses educacionais do Império, tornou-se seu conselheiro para questões de ensino e cultos. Foi o criador das universidades ditas palatinas, ou Palácio-escola, em Aix-la-Chapelle, sob encomenda do imperador Carlos Magno, seu idealizador, na qual eram ensinadas as sete artes liberais: o trivium, gramática, lógica e retórica, e o quadrivium, aritmética, geometria, astronomia e a música. Historicamente é considerado o maior artífice do renascimento carolíngio, por seu espírito organizador e pela criação de suas primeiras obras doutrinárias. Morreu  na cidade de Tours, na França, e canonizado, tornou-se o patrono das universidades cristãs. Escreveu livros de textos elementares sobre aritmética, geometria e astronomia. Certa vez (793) quando grassou uma grande fome coletiva, seguida da invasão dos bárbaros Vikings noruegueses que assaltaram a comunidade da ilha e saquearam a casa de Deus, massacraram alguns monges, roubaram e incendiaram o mosteiro, o famoso e letrado sacerdote da Nortúmbria, que estava naquela época a serviço de Carlos Magno na França, escreveu horrorizado ao ReiÆthelred da Nortúmbria e a seus colegas da Inglaterra, dizendo que o ataque mortal foi uma punição de Deus pelos pecados do povo.

28/08/2015

A Igreja e o Desenvolvimento da Ciência no Ocidente (séculos I - XVII): Algumas Considerações

Introdução

Não é incomum deparar-se com a afirmação de que a Igreja coibiu o desenvolvimento da ciência* em eras passadas, se baseando em uma fé dogmática que prescindia de qualquer operação racional, e condenou aqueles que se posicionavam de maneira aparentemente contrária às concepções difundidas no meio eclesiástico. Opondo-se a esta visão, este artigo traz algumas considerações sobre a Igreja e sua relação com a ciência em alguns períodos históricos.

* O conceito moderno de ciência apresenta algumas divergência em relação à produção do conhecimento na Idade Média. No entanto, para fins de análise, adotei o termo para ambas as épocas com o intuito de se pensar sobre o desenvolvimento intelectual.

Desde os primeiros séculos da Igreja, o uso da razão acompanhou a pregação cristã. Observando-se o discurso de Paulo, os apologistas dos primeiros séculos, os padres da Igreja, a Escolástica, os Jesuítas..., percebe-se que a fé cristã nunca desprezou a produção do conhecimento. S. Agostinho, procurando resgatar a dignidade da razão na busca da verdade – desacreditada por correntes filosóficas céticas presentes em seu tempo – afirmava que este dado é assegurado pela fé. O intelecto humano não poderia sozinho ser o avalista do conhecimento, pois a verdade é eterna (Abrão, 1999, p. 98-99). Assim, ao mesmo tempo que esta procura se depara com a fé em Deus, é por ela que se pode resgatar a dignidade da razão: “Compreender para crer, crer para compreender”, escreve o filósofo (Citado por Abrão, 1999, p. 99). Contrariamente a idéia de Tertuliano, que dizia crer por ser absurdo (Abrão, 1999, p. 99), Agostinho procurava reabilitar a razão diante da fé. Já para S. Tomás de Aquino, a razão natural pode, na observação dos dados sensíveis, chegar ao conhecimento da verdade, ou seja, de Deus. Assim, não há contradição entre revelação e razão, ambas são meios diferentes pelos quais se manifesta a mesma e única verdade (Idem, p. 116).

No século V, com a queda do Império Romano no Ocidente, estabelecem-se os novos reinos bárbaro-romanos desde a Península Ibérica até a Península Itálica. O esvaziamento das cidades e o crescimento da vida camponesa são fenômenos que se intensificam durante essa mudança. Diante desta conjuntura, era necessário tomar iniciativas que visassem a preservação da herança cultural que a sociedade greco-romana representava. Sob o domínio de Teodorico, rei dos ostrogodos, homens como Boécio – que se utilizou das categorias da filosofia grega para propor a fé cristã, além de escrever manuais de aritmética, de geometria, de música e de astronomia – e Cassiodoro – que após abandonar a vida pública, concebeu a idéia de confiar aos monges a tarefa de recuperar, conservar e transmitir à posteridade o imenso patrimônio cultural dos antigos – eram responsáveis pela administração civil. 

A Igreja foi a principal instituição educacional da Idade Média. No século VI, São Cesário de Arles já expunha no Concílio de Vaison (529) a necessidade de criar escolas no campo; e os bispos se dedicaram a isso. No Império Carolíngio, a reforma educacional foi influenciada por Alcuíno, um acadêmico e teólogo anglo-saxão que se tornou diretor da Escola Palacial. Sob o governo de Carlos Magno, além de serem promulgados decretos que promoviam elementos para o enriquecimento da cultura clerical, um esquema para a universalização do ensino elementar foi criado. Uma lei do ano de 802 dizia: “todos devem enviar seu filho para o estudo literário, e a criança deve permanecer na escola com toda diligência até o momento em que ela deva tornar-se bem instruída no aprendizado” ("everyone should send his son to study letters, and that the child should remain at school with all diligence until he should become well instructed in learning" - Catholic Encyclopedia). O III Concílio de Latrão (1179), ordenou ao clero que abrisse escolas por toda a parte para as crianças, gratuitamente, obrigando a todas as dioceses terem ao menos uma. Também foi aprovado o cânon que ordenava que em todas as igrejas catedrais se provessem os rendimentos necessários para que um mestre pudesse ensinar gratuitamente os clérigos e os alunos pobres.

Os níveis escolares se dividiam em primário, secundário e superior. No primeiro, estavam as escolas paroquiais. Depois, havia as escolas das catedrais, as escolas monásticas e as escolas capitulares. No ensino superior, as Universidades desempenharam papel capital para o desenvolvimento intelectual. Surgidas dos centros docentes que estavam sob a proteção dos Papas e reis católicos, as Universidades tinham a capacidade de oferecer estudos em várias disciplinas e de outorgar títulos reconhecidos em toda a cristandade, graças ao seu grau pontifício. A universidade foi um fenômeno totalmente novo na história.

Na baixa Idade Média, o método escolástico baseado na quaestio – levantamento de um problema; disputatio – confronto de argumentos; e conclusio – posicionamento do pensador – traria uma verdadeira renovação intelectual já que fomentava a busca de novas interrogações e provas. No século XIII, obras de Aristóteles chegam ao Ocidente através dos árabes. Sua filosofia natural iria influenciar novos pensadores cristãos e assim dar novas perspectivas à ciência medieval. Entre aqueles que promoveram novos estudos científicos, neste sentido, pode-se aludir a Santo Alberto Magno – autoridade em física, geografia, astronomia, dentre outras áreas – que no seu tratado sobre as plantas afirmou: Experimentum solum certificat in talibus (A experimentação é o único guia seguro nessas investigações) (Catholic Encyclopedia). Destaca-se, também, Nicole Oresme, filósofo, economista, matemático e físico , autor das obras "Traité de la sphère" e "Traité du ciel et du monde". Nesta ultima, o pensador afirma que a experiência sensível não pode determinar se é a Terra ou o céu que se move, suscitando a teoria da translação da Terra antes de Copérnico (Catholic Encyclopedia). Junto com Jean Buriman, Oresme também formulou asserções acerca da teoria do impetus, cujo elo de ligação com a dinâmica inercial seria fornecido posteriormente por Galileu. Todos estes homens são frutos da ação intelectual da Igreja.

Na Idade Moderna, merece destaque a ação dos membros da Companhia de Jesus no desenvolvimento científico. Segundo Jonathan Wright:

“...sugestões de que os jesuítas não ofereceram nada para o estoque do conhecimento humano eram obviamente falsas. Contribuíram para o desenvolvimento do relógio de pêndulo, dos pantógrafos, barômetros, telescópios e microscópios refletores e para o desenvolvimento de campos científicos tão variados quanto o magnetismo, a ótica e a eletricidade” (WRIGHT, 2006, p. 198).

Também fizeram novas descobertas espaciais, teorizaram sobre a influência da lua nas marés, sobre a circulação sangüínea e muito mais (Idem, p. 198).

Jean Hébrard destaca que a Igreja Católica tridentina incentivou de tal forma as instituições escolares, que seria impossível reconstruir uma história da cultura escrita sem encarar as modalidades da sua escolarização (Citado por FARIA, p. 6). A escrita ganhou um papel inédito já que a partir do século XVI, com a divisão da cristandade, os conflitos dogmáticos estavam presentes em toda sociedade e, portanto, era necessária a instrução sobre as verdades da fé fixando a “letra” da doutrina. Nesse contexto, a Companhia de Jesus passa a assumir os encargos da instrução no âmbito de Trento. 

No início, os Colégios Jesuítas se destinavam aos membros em formação. Mais tarde, o ensino foi alargado a estudantes não religiosos o que contribuiu para a expansão das instituições de ensino jesuíticas pela Europa, América e Ásia.

Ignácio José Veríssimo sublinha que, no Brasil colonial, a metrópole abandonou o cuidado com a instrução deixando-a sob responsabilidade dos jesuítas. Dessa forma, a massa dos livros e instrumentos de ensino estavam nas mãos dos jesuítas, assim como o corpo de professores (VERÍSSIMO, p. 378). À época do Marques de Pombal, os jesuítas possuíam 17 estabelecimentos de ensino espalhados por todo o Brasil. 


E o caso Galileu?

Para se entender a complexidade do processo de são necessários alguns esclarecimentos teóricos sobre a ciência de sua época. O sistema heliocêntrico, defendido por Aristarco de Samos (século III a.C.), não gozava de extensa credibilidade entre os pensadores pré-modernos principalmente por dois argumentos: primeiramente, baseando-se nos conhecimentos da época, advindos da observação natural, acreditava-se que se a Terra girasse em torno de si, deveria haver um movimento relativo terra-ar e, portanto, para quem está parado na superfície da Terra, um vento com a mesma velocidade; além disso, outro argumento inferia que se a Terra girasse em torno de si, quando uma pessoa lançasse uma pedra verticalmente para o alto ela cairia em um ponto afastado de seu lançamento. Mesmo assim, a obra de Copérnico seguiu sendo difundida e foi acolhida pelo Papa Paulo III.

Galileu passou a defender as propostas de Copérnico, sendo elogiado por alguns pensadores Jesuítas (Clavius, Griemberger e outros) e recebido pelo Papa Paulo V em audiência particular. Até então, não se levantaram questões sobre a fidelidade de Galileu por parte de Roma, deixando-se a discussão no campo especulativo. No entanto, para se defender daqueles que eram contrários à sua tese, e usavam passagens bíblicas para fundamentar seus pensamentos, Galileu faz considerações sobre a interpretação das escrituras. Afirmando que as mesmas não tratam da verdade em questões que não as de salvação, seus pensamentos, considerados duvidosos naquela época, pareciam inovações inspiradas pelo princípio do “livre exame da Biblia” propugnado por Lutero. Por esse motivo, em 1616 o Santo Ofício ordenou que Galileu cessasse de defender suas teses. Essa restrição, surge como uma medida preventiva e não doutrinal.

Em novembro de 1618 apareceram três cometas na Europa, provocando novas discussões científicas. Entre 1624 e 1630 Galileu escreve um novo livro, “Diálogo sobre os dois Sistemas Máximos de Mundo, o Ptolomaico (Sistema no qual se defendia o Geocentrismo) e o Copernicano”, comunicando ao Papa Urbano VIII, que o aconselha a tratar o sistema de Copérnico como hipótese. Galileu, no entanto, não faz as modificações necessárias para adquirir o “Imprimatur” e publica o livro tratando o sistema de Copérnico como verdade no corpo da obra. Diante disso, Galileu é condenado à três anos de prisão que depois é comutada em prisão domiciliar. Morre em 08/01/1642, assistido por um clérigo. Mas uma vez percebe-se que sua condenação tem caráter disciplinar. Em 1623, o Papa Urbano VIII afirmou que a doutrina do heliocentrismo jamais fora condenada como herética (BETENCOURT).


Conclusão

Pode-se perceber, que a Igreja não coibiu a pesquisa científica, mas, ao contrário, era a sua principal promotora. No entanto, a sociedade medieval, e mesmo moderna, concebia toda ação em função de uma cosmologia baseada na fé. A Igreja, reduto de cultura, forneceu as bases dos Estados medievais, cujos reis eram investidos por clérigos, enquanto grande parte das instituições do poder público também estavam relacionadas ou dependiam dos meios eclesiásticos. O historiador Jacques Le Goff, afirma que havia uma verdadeira fusão entre a comunidade religiosa e a comunidade nacional ou social (Citado por Gonzaga, p. 109). Nesse sentido, pode-se compreender a preocupação das instâncias de poder -tanto religiosas como políticas – em coibir teses contrárias à fé universal que deu origem a Civilização Ocidental. O historiador francês Lucien Febvre – um dos fundadores da escola das Annales, que revolucionou a historiografia ocidental no início do século XX – afirmou que:

“A psicologia retrospectiva ou psicologia histórica tem a vocação de recuperar os quadros mentais dos períodos do passado, romper com a concepção de uma natureza humana atemporal, imutável, assim como todo anacronismo, ou seja, a tendência natural de transpor nossas próprias categorias de pensamento, de sentimento, de linguagem para as sociedades nas quais elas não têm significado ou o mesmo significado” (Citado por Matos, p. 168).

Seguindo esse conceito teórico, infere-se que não é conveniente transpor uma ideologia de liberdade de expressão para uma sociedade que tem a religião como o centro da existência e concebe a mesma como una e universal. O Ocidente medieval, e os Estados modernos católicos, são fundados e têm como essência a mesma fé católica. Na Idade Média, essa civilização era conhecida como Christianitas (Cristandade). Toda divergência é não só uma ferida ao corpo espiritual como também ao corpo social – e então, o braço secular era quem agia. Isso, porém, não impedia a produção de conhecimento que, como foi exposto, era incentivada, cuidando-se para que aparentes divergências em relação à doutrina fossem analisadas diligentemente. Nem constituiu-se uma contradição entre fé ciência, pois como pode-se observar, afirmava-se a complementariedade de ambas: Fides, si non cogitatur, nulla est (A fé, sem a razão, é nula), disse Santo Agostinho (Citado por Aquino, 2008, p. 131).

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Referências

ABRÃO, Bernadette Siqueira. História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999

AQUINO, Felipe. Uma História que não é Contada. Lorena: Cléofas, 2008

BETTENCOURT, Estevão. O Processo de Galileu. Disponível em: http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=IGREJA&id=deb0634. Acesso em: 04:10:2008

BLESSMANN, Joaquim. Ainda o Caso Galileu. Disponível em: http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=ESTEVAO&id=deb0033. Acesso em: 04:10:2008

FARIA, Marcos Roberto de. Os jesuítas e a contra-reforma: contribuições para história da leitura no Brasil-colônia. Dispnível em:http://www.alb.com.br/anais16/sem07pdf/sm07ss02_05.pdf. Acesso em 27/11/08

GONZAGA, João Bernadino. A Inquisição em seu Mundo. São Paulo: Saraiva, 1993

http://www.catholic.org/encyclopedia/view.php?id=410

http://www.catholic.org/encyclopedia/view.php?id=428

http://www.catholic.org/encyclopedia/view.php?id=8772

LE GOFF, Jacques. A Civilização do ocidente medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1983.

MATOS, Júlia Silveira. Lucien Febvre e a Quádrupla Herança: Aspectos Teóricos do Campo Biográfico . Disponível em:http://www.seer.furg.br/ojs/index.php/dbh/article/view/727/220. Acesso em 04. 10. 2008

SOUSA, Jesus Maria. Os Jesuítas e a Ratio Studiorum As raízes da formação de professores na Madeira. Dispnível em:http://www.uma.pt/jesussousa/Publicacoes/31OsJesuitaseaRatioStudiorum.PDF. Acesso em: 30/11/08

VERÍSSIMO, Ignácio José. Pombal, Jesuítas e o Brasil. Rio de Janeiro: SMG, 1961

WRIGHT, Jonathan. Os Jesuítas: Missões, Mitos e Histórias. Rio de Janeiro: Relume Duramará, 2006

ZYBERSTAJN, Arden. A Evolução das Concepções sobre Força e movimento. Disponível em:http://www.fsc.ufsc.br/~arden/textos/A%20Evolu%E7%E3o%20das%20Concep%E7%F5es%20Sobre%20For%E7a%20e%20Movimento.doc . Acesso em: 04:10:2008

A Educação na Idade Média e a Influência da Igreja no Pensamento Ocidental

Caritas Maria da Silveira Oliveira

Resumo


Este artigo apresenta alguns aspectos da educação na Idade Média, nos quais se pode entrever a Igreja Católica como a instituição mais importante do período, pois dominava todas as dimensões da sociedade. As escolas se desenvolveram no seio da Igreja, o que facilitou o processo de controle. De acordo com o historiador Jacques Verger (1999), existiram três tipos de instituições educacionais nesse período: as escolas elementares, as universidades e as novas instituições. No presente artigo, damos atenção às duas primeiras, já que, dentro delas, podemos perceber de forma mais delineada o poder da Igreja sendo exercido. Com o passar do tempo, percebemos o afastamento das universidades do poderio da Igreja. A redescoberta da filosofia de Aristóteles, entre outros fatores, teria gerado nos estudantes e mestres o estímulo necessário para que organizassem instituições autônomas que garantissem a liberdade de expressão e de ensino. A partir do século XIII, essas instituições se tornam locais de discussão e crítica à sociedade. Ao lado disso, soma-se o processo de “dessacralização do livro”, acompanhado pela racionalização dos métodos intelectuais e dos mecanismos mentais. Dessa maneira, compreendemos a gradativa perda da autoridade da Igreja sobre a educação no período medieval.

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v. 1, n. 1 (2014): Revista Maiêutica - Curso de Letras - Língua Portuguesa e Respectiva Literatura.

A Igreja e a Universidade

Resumo: O presente artigo tem por objetivo apresentar um relato sobre a contribuição da Igreja Católica na Idade Média para a origem e formação das universidades tal como as temos hoje. Este trabalho será baseado no quarto capítulo do Livro “Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental” (2008) de Thomas E. W. J. intitulado: A Igreja e a Universidade. Será demonstrado que a visão de que a Idade Média foi um período de “trevas” e paralisação cultural e intelectual é errônea, pois dentre várias contribuições que esse período realizou uma delas foi a criação das universidades e do método de estudo e pesquisa que hoje vigora em nossas instituições, o que comprova o valor que teve e tem a Igreja Católica desde os seus primórdios.

 Palavras chave: Igreja, Universidade, Idade Média, Escolástica.
  
Em nossos tempos, muito se fala e escreve sobre a Idade Média como sendo um período de “trevas”, de ignorância, de repressão intelectual, e essas afirmações, na maioria das vezes, saem de dentro dos próprios colégios. Mas ignorância é atestar tal afirmação como sendo verdadeira, sem ter conhecimento real da importância que este período teve e da contribuição que o mesmo prestou. Uma dessas importantes contribuições foi o sistema universitário.
Até a Idade Média não se tinha nada parecido com a Universidade, nem na Grécia, muito menos em Roma. O estilo universitário, tal como é baseado o nosso atual, foi uma fundação da Igreja, por que como afirma o historiador Lowrie Daly, a Igreja era “a única instituição na Europa que manifestava um interesse consistente pela preservação e cultivo do saber” (LOWRIE apud WOODS; 2008, p. 46). As datas que as primeiras Universidades surgiram em Paris e Bolonha, Oxford e Cambridge, não são precisas, mas a certeza é que começaram a ganhar forma na segunda metade do século XII.
Algumas são as características que se pode reconhecer uma escola medieval como Universidade:
Uma universidade possuía um núcleo de textos obrigatórios, com base nos quais os professores faziam as suas prelações e, ao mesmo tempo, expunham idéias próprias. Caracterizava-se também por estabelecer currículos acadêmicos bem definidos, que duravam um número de anos mais ou menos fixo, assim como por conferir diplomas. A concessão de título de “mestre” permitia a quem o recebesse o acesso ao grêmio dos docentes [...]. Embora muitas vezes as universidades tivessem de batalhar junto das autoridades externas pela sua autonomia, geralmente conseguiam-na, assim como o seu reconhecimento legal como corporações (WOODS, 2008, p. 47).
  
No tempo da Reforma havia oitenta e uma universidades. Trinta e três destas tinham estatuto pontifício, quinze estatuto real ou imperial, vinte tinham os dois, e apenas treze não tinham nenhuma credencial. Isso reflete o papel que também o Papado desempenhava naquela época em relação à educação. Somente concedia diplomas oficiais para todo o território da Cristandade com a aprovação do papa, do rei ou do imperador, aqueles diplomas com aprovação de monarcas nacionais simplesmente valiam no reino que eram emitidos.
Mas não só para isso era valiosa a participação dos papas. Nesta época eram comuns os conflitos entre as universidades e o povo ou o governo local. Por um lado a cidade se nutria com o dinheiro que os estudantes traziam e gastavam ali, mas por outro lado esses mesmo estudantes se tornavam irresponsáveis e indisciplinados, o que trazia desgosto e, consequentemente, alguns abusos do povo local em relação aos estudantes. Por esse motivo a Igreja concedeu a esses universitários uma proteção especial, o chamado benefício do clero
Os clérigos gozavam na Europa medieval de um estatuto especial: maltratá-los era um crime extraordinariamente grave; tinham o direito de que as suas causas fossem julgadas por um tribunal eclesiástico, e não pelo civil. Os estudantes universitários, como atuais ou potenciais candidatos ao estado clerical, passaram a também gozar desses privilégios. Os governantes civis também lhes estenderam muitas vezes uma proteção similar [...] (WOODS, 2008, p. 49). 
E não somente nessa ocasião os papas auxiliaram, pois muitos são os registros de interferências papais para um progresso significativo das universidades. Honório III se colocou ao lado de professores que protestavam em favor de seus direitos de liberdade, Inocêncio III interveio quando o chanceler de Paris insistiu que jurassem lealdade à sua pessoa, Gregório IX lançou a bula Parens scientiarum em favor dos mestres de Paris quando as autoridades diocesanas interferiram na autonomia institucional das universidades. Nessa bula o papa concedeu à Universidade de Paris o direito à autonomia de governo, assim ela poderia elaborar suas próprias regras a respeito dos cursos e pesquisas. Também neste documento o papa procurou zelar pela justiça e pela concórdia no ambiente das universidades, concedendo o direito à greve dos estudantes quando estes fossem tratados de modo abusivo. Assim, era comum que as universidades se queixassem ao papa as suas preocupações.
No começo, as aulas eram ministradas nas catedrais ou em salas privadas, pois ainda se carecia de um ambiente próprio, não havia bibliotecas e os livros eram raros, na maioria das vezes aqueles que existiam eram alugados. A maioria dos estudantes era de famílias com poucas posses, muitos se matriculavam com o objetivo de se prepararem para uma profissão, por esse motivo o curso mais freqüentado era o de Direito. Também alguns frades estudavam para ampliar seus conhecimentos ou contavam com a ajuda de um superior eclesiástico. Mas o que se estudava nessas instituições?
Começava-se pelas sete artes liberais, para os principiantes, e prosseguia-se com o direito civil e canônico, a filosofia natural, a medicina e a teologia.  Quando as universidades ganharam forma no século XII, foram as felizes beneficiárias dos frutos daquilo que alguns historiadores denominaram “a Renascença do século XII”. Os intensos esforços de tradução permitiram recuperar muitas das obras do mundo antigo – sobre a geometria euclidiana, a lógica, a metafísica, a filosofia natural e a ética aristotélica -, bem como as obras de medicina de Galeno. Também os estudos jurídicos começaram a florescer, particularmente em Bolonha, quando foi descoberto o Digesto, coleção das decisões dos jurisconsultos romanos mais célebre, transformadas em lei e integradas no Corpus júris civilis pelo imperados Justiniano no século VI, e que está na base de todos os códigos civis modernos (WOODS, 2008, p. 51).
Também a vida acadêmica era muito parecida com a que temos em nossas universidades hoje. A distinção de graduação e pós-graduação e o reconhecimento de uma universidade por alto nível em determinada área são exemplos que também naquele tempo se tinha. O método utilizado por Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica era de grande prestígio. Os alunos deviam defender aspectos contrários de determinada questão que o mestre propunha, quando acabava a discussão, o professor tinha o dever de “definir” ou resolver o problema. Assim, para a obtenção do diploma, o aluno deveria resolver uma questão perante os examinadores, depois de provar que estava apto a tal teste. Após discorrer positivamente a questão o aluno recebia o diploma e poderia sair em busca de um trabalho. Esse processo até receber o diploma normalmente durava cerca de quatro a cinco anos.
Os estudos desta época não eram dirigidos somente à teologia, mas sim para vários campos da filosofia natural, como também se pregava a conciliação entre fé e razão:
Dessarte, surgiu algo novo, no medievo, isto é, a demonstração de que filosofia e teologia, fé e razão, longe de serem antagônicas, são conciliáveis. Não admira, pois, terem sido os studia da Idade Média lugares de amplo e profundo diálogo entre cultura e Revelação, turbado, por vezes, com tensões, como a que se verificou no entrechoque da via antiqua com a via moderna (ULLMANN, 2000, p. 437).
Muitos teólogos escreveram sobre física e a própria lógica era de extrema importância nos estudos, demonstrando o compromisso que se tinha com o pensamento racional. Assim, se aquelas afirmações de que tudo era guiado pelos argumentos de autoridade fosse verdade, não teria sentido tanto rigor com a lógica formal nas disciplinas universitárias. E esse tempo que era grande o empenho com que se ministrava a Lógica formal, revelando uma civilização que almejava a compreensão e a persuasão, foi conhecida como Escolástica.
Geralmente, a Escolástica estava ligada ao uso da razão como ferramenta indispensável para os estudos teológicos e filosóficos e para a dialética – confronto de posições opostas, seguido da solução da questão em debate pelo recurso á razão e á autoridade -, e como método de tratar assuntos de interesse intelectual. Com o amadurecimento dessa tradição, tornou-se comum que os tratados escolásticos seguissem uma pauta fixa: enunciado de uma questão, exposição dos argumentos de ambos os lados, manifestação do ponto de vista do autor e resposta às objeções (WOODS, 2008, p. 55).
O primeiro dos escolásticos talvez seja Santo Anselmo de Cantuária (1033-1109), mesmo que não ocupou nenhum cargo de docência, mas soube compartilhar com eles o uso da razão para analisar questões de Filosofia e de Teologia, como por exemplo, sua obra Cur Deus homo que tratava racionalmente “o porquê” Deus se fez homem. Mas Santo Anselmo é bem mais conhecido nos círculos filosóficos por sua prova racional da existência de Deus:
Para Anselmo, a existência de Deus era uma conseqüência lógica da própria definição de Deus. Tal como um bom conhecimento e profunda compreensão da ideia de “nove” implica que a sua raiz quadrada é “três”, assim também a profunda compreensão da ideia de Deus implica que esse ser deve existir necessariamente (WOODS, 2008, p. 55).
Mesmo que muitos não se convenceram totalmente do argumento de Anselmo, mas a grande maioria dos filósofos levou em conta seu pensamento. O que demonstra o grande compromisso que a idade Escolástica tinha com a razão, compromisso esse que pensadores posteriores assumiriam também.
Outro grande representante dessa época foi Pedro Abelardo (1079-1142) que foi professor por dez anos na escola da catedral de Paris. Este elaborou uma lista de aparentes contradições, citando passagens dos primeiros Padres da Igreja e da própria Bíblia. Qualquer que fosse a solução de cada caso, cabia à razão humana resolver tais dificuldades intelectuais.
Disse certa vez que não ‘desejava ser um filósofo, se isso significasse rebelar-se contra o Apóstolo Paulo, nem um Aristóteles, se isso significasse separar-se de Cristo’. Os hereges – disse também – usaram argumentos da razão para atacar a fé e, por isso mesmo, era muito conveniente e apropriado que os fiéis da Igreja fizessem uso da razão para defender a fé (WOODS, 2008, p. 58).
Também o pensamento de Abelardo influenciou pensadores posteriores como, por exemplo, Pedro Lombardo (1100-1160) que, provavelmente foi seu aluno. Lombardo escreveu as Sentenças, obra que se tornou texto fundamental para o estudo de Teologia dos cinco séculos seguintes. Neste escrito ele abordou assuntos diversos da fé católica combinando a confiança na autoridade com a disposição de empregar a razão na exposição dos temas teológicos.
O maior dos escolásticos e, na verdade, um dos maiores pensadores de todos os tempos foi Santo Tomás de Aquino (1225-1274). Escreveu uma grandiosa obra chamada Summa theologiae, obra esta que respondeu milhares de interrogações sobre a teologia e a filosofia. Foram vários os temas abordados, mas a questão que mais contribuiu, tanto em Santo Tomás como em Santo Anselmo, foi a existência de Deus, por ser o exemplo clássico do uso da razão em favor da fé. Santo Tomás desenvolveu na Suma cinco vias para se chegar a provar a existência de Deus. Ele começa dissertando sobre causa e efeito, pois afirma que todo efeito requer uma causa e que nada do que existe no mundo físico é causa de sua própria existência, por isso esse argumento foi chamado de princípio da razão suficiente. “Quando vemos uma mesa, por exemplo, sabemos perfeitamente que ela não apareceu espontaneamente. Deve a sua existência a algo mais: a um construtor e a uma matéria-prima anteriormente existente” (WOODS, 2008, p. 60).
Santo Tomás afirma que deve haver uma Causa sem causa que dê início à sequência de causas:
Essa primeira causa – diz São Tomás – é Deus. Deus é um ser que existe por si mesmo, cuja existência é parte da sua própria essência. Nenhum ser humano deve existir necessariamente; houve um tempo antes de cada em de nós ter vindo à existência, e o mundo continuará a existir depois de cada um de nós ter morrido. A existência não é parte da essência de nenhum ser humano. Mas com Deus é diferente: Ele não pode não existir. E não depende de nada anterior a si mesmo para explicar a sua existência (WOODS, 2008, p. 60).
Foi com estes exemplos de rigor filosófico que marcou a vida intelectual das primeiras universidades. E justamente por isso que as universidades eram tidas como verdadeiros tesouros da civilização cristã. Tanto isso é verdade que o papa Inocêncio IV (1243-1254) afirmou que as universidades eram como “rios de ciência cuja água fertiliza o solo da Igreja universal’, e o papa Alexandre IV (1254-1261) chamou-as ‘lâmpadas que iluminam a casa de Deus’” (WOODS, 2008, p. 61). E foi precisamente o apoio dos papas que as universidades cresceram e tiveram êxito.
Contrariando as afirmações de que a Idade Média nada contribuiu para a civilização, o exposto neste artigo retrata a tamanha importância da liberdade de pesquisas universitárias, liberdade esta que permitia os alunos debater e discutir proposições apoiados na certeza da utilidade da razão humana.
O que foi que tornou possível à civilização ocidental desenvolver a ciência e as ciências sociais de um modo que nenhuma outra civilização havia conseguido até então? Estou convencido de que a resposta está no penetrante e profundamente arraigado espírito de pesquisa que teve início na Idade Média como consequência natural da ênfase posta na razão. Com exceção das verdades reveladas, a razão era entronizada nas universidades medievais como árbitro decisivo para a maior parte dos debates e controvérsias intelectuais. Os estudantes, imersos em um ambiente universitário, consideravam muito natural empregar a razão para pesquisar as áreas do conhecimento que não haviam sido exploradas anteriormente, assim como discutir possibilidades que antes não haviam sido consideradas seriamente (GRANT apud WOODS, 2008, p. 62).
A criação da Universidade, com esta também o compromisso com a razão e com a argumentação racional e o abrangente espírito de pesquisa foram contribuições especiais da Idade Média ao mundo moderno, mesmo que isso não seja reconhecido por este. “Foi um dom da civilização cujo centro era a Igreja Católica” (WOODS, 2008, p. 62).
Além de todo o conteúdo já mencionado não podemos nos esquecer de outras contribuições também importantes daquela época, que facilitaram nosso aprendizado hoje. Uma dessas contribuições foi fruto dos copistas, pois naquele tempo não havia tipografia e todos os livros que precisassem ser estudados eram copiados para multiplicar o número e facilitar o estudo. Outro fator importante era o intercâmbio cultural, facilitado pelo latim, língua única para os meios de comunicação de idéias naquele período. Os grandes mestres eram disputados por diversas universidades: “A universitas medieval tinha as portas abertas a todas as culturas: grega, romana, árabe e judaica, tornando-se depositária e reelaboradora do pensamento por elas legado” (ULLMANN, 2000, p. 429).
Também a questão social foi fortemente afetada com o surgimento das universidades, pois como foi a Igreja Católica a responsável por esse surgimento, ela também usou desse instrumento para praticar os preceitos evangélicos:
Eliminou-se a diferença entre ricos e pobres, mediante bolsas de estudo e prebendas. A isenção de taxas (privilegium paupertatis) foi uma medida consciente das universidades para com os poucos afortunados, a fim de promover, sem discriminação, as capacidades intelectuais e o desejo de saber, quer se tratasse de clérigos ou de seculares. Explica-se assim, o acesso de leigos às cátedras de teologia (ULLMANN, 2000, p. 433).
  Após tais constatações verifica-se que a “Idade das trevas”, como é chamada a Idade Média por alguns, soube iluminar a todos com o desejo e a ânsia pelo saber em busca da Verdade Última. Conseguiu deixar um importantíssimo legado para toda a humanidade e sempre se poderá usufruir deste bem, pois, como afirmou Salomão “a sabedoria não se deixa acorrentar” (Pr 9, 1). A universidade subsiste enquanto houver homens consagrados ao ensino e à pesquisa, visando sempre a verdade. Esta é a tradição que herdamos da Igreja Católica na Idade Medieval.


REFERÊNCIAS
  
WOODS. T. E. J. Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental. Trad. Élcio Carillo. São Paulo: Quadrante. 2008. 222 p.

ULLMANN, Reinholdo Aloysio. A Universidade Medieval. 2 ed. Porto Alegre: EDIPUCRS. 2000. 486 p.

24/10/2013

Cristianismo Medieval



I. O cristianismo latino na Alta Idade Média
1.Problemas e métodos de cristianização:
O quadro político do Ocidente nos séculos V a IX. Os ‘Bárbaros’: entre arianismo e catolicismo; as rápidas
conversões e os seus efeitos. Importância da conversão dos Francos para o Ocidente.
Debates teológico-políticos no final do mundo antigo e começos da Idade Média. Cristianização dos
‘Bárbaros’ e barbarização do cristianismo. O cristianismo bárbaro inaugura a Idade Média.
Na Península Ibérica: peculiaridades do cristianismo desde os primeiros séculos. A conversão dos Suevos e o
papel de S. Martinho de Dume. A cristandade visigótica e Isidoro de Sevilha. O advento dos Muçulmanos, a
diáspora cristã e os ‘resistentes’[moçárabes].
Estruturas e instituições num período de mudança
Igrejas nacionais e igrejas privadas. O Ocidente fragmentado e isolado. A conversão dos Lombardos. Bento
de Núrsia e a Regra Beneditina. O monaquismo no Ocidente.
O papado desde Gregório Magno [590-604] até meados do século VIII: um esforço de direcção unitária.
Episcopalismo versus monaquismo no governo das igrejas cristãs? As relações entre Roma e Bizâncio.
O cristianismo no mundo carolíngio
Situação da Igreja franca  nos séculos VII e VIII. Comparação com o cristianismo das Ilhas Britânicas. A
acção reformadora do monge beneditino inglês Winfrid [Bonifácio]. Os Francos voltam-se para o Papa.
Cristianização da Germânia e da Escandinávia.
Carlos Magno e a Igreja: a ideia de «Cristandade ocidental». Características do cristianismo carolíngio;
reformas religiosas e renascimento cultural. O monaquismo. Debates teológicos: adopcionismo e
iconoclastia. O culto e a liturgia. Da ‘doação de Constantino’ à Igreja nas mãos dos leigos. Feudalização das
estruturas religiosas e desejos de ‘libertas’.
4. O cristianismo desde o século X à «Reforma gregoriana» [1049-1122]
Vitalidade e expansão do cristianismo no século X; o mundo monástico nos séculos X e XI: eremitismo e
cenobitismo na Itália. Esboço de movimentos reformistas: Cluny, Brogne e Gorze.
A Cristandade do ano mil. As grandes transformações da sociedade cristã desde o princípio do século XI.
Institucionalização do movimento reformador em meados do século; Gregório VII e a «reforma gregoriana»
[1073-1085]; o centralismo romano e os seus opositores. Um outro impulso expansionista? As Cruzadas. O
novo  equilíbrio dos poderes temporais e espirituais.
II. O cristianismo oriental: entre ortodoxia e heterodoxia
1. Ortodoxia e heterodoxia no tempo de Justiniano:
Premissas histórico-doutrinais de um conflito. Restauração política e unidade dogmática na acção de
Justiniano. Fracasso da política religiosa imperial e o despontar de igrejas nacionais.
2. A secessão do Oriente heterodoxo:
O avanço persa no Oriente bizantino e as suas repercussões religiosas. O culto da Virgem Maria e dos
santos: a espontânea devoção dos fiéis e a recuperação de antigas crenças. Em busca de novos
compromissos doutrinais: o monotelismo. Novas tensões com a cristandade ocidental: aspectos políticos e
questões doutrinais. Consolidação das instituições públicas e das estruturas eclesiásticas como reacção às
conquistas muçulmanas. A fragmentação das cristandade oriental: Nestorianos, Monofisitas, Melquitas e
Maronitas. A Arménia e a Geórgia.
3. A luta pelas imagens e o triunfo da ortodoxia:
As origens da iconoclastia: uma questão em aberto. O papel do sagrado na sociedade bizantina e a função
das imagens. O estatuto do ícone: sugestões cristológicas e complicações intelectuais. A afirmação monástica no concílio de Niceia de 787. Nova fase iconoclasta e nascimento de uma estética cristã. O
triunfo da ortodoxia.
4. O fervor missionário do cristianismo oriental:
Fócio: um patriarcado entre moderados e rigoristas. Evangelização dos Eslavos: entre ardor missionário e
acção política. A conclusão da obra evangelizadora: a cristianização da Rússia.
5. A ortodoxia entre espiritualidade e tentações seculares:
Uma igreja rica e poderosa mas de piedade modesta. Insatisfação religiosa e movimentos heterodoxos. O
cisma entre Roma e Constantinopla. O renascimento do espiritualismo monástico: o hesicasmo.
III. O cristianismo latino entre os séculos XII e XV
1. Cristianismo e Cristandade na época da «teocracia papal [1122-1309]
A construção da monarquia papal. O modelo institucional romano: sua divulgação e imposição ao Ocidente.
A perda das peculiaridades regionais e a diminuição dos poderes locais. Inocêncio III e o concílio IV de
Latrão [1215]. A Cristandade ocidental.
2. O poder social do clero e a sua contestação:
A afirmação das estruturas eclesiásticas no princípio do século XIII. A contestação do modelo clerical de
cristianismo. A ascensão das mulheres religiosas.  Os leigos em busca de lugar e de estatuto. Heresias e
contestações. Formas de repressão e de superação. Francisco de Assis e Domingos de Gusmão. O
nascimento dos frades; as Ordens Mendicantes; o combate aos hereges. Reforço e alargamento da cultura
das elites: organização dos estudos superiores e nova presença pastoral. Da Peregrinação à Cruzada; da
Cruzada à Missão. Enquadramento eclesiástico e conformismo religioso. A atracção do Oriente mais
distante. Rituais litúrgicos, formas de piedade e devoção.
3. Crises do cristianismo no «Outono da Idade Média» [1309-1453]:
As vicissitudes do papado na Igreja de França [1309-1378]. Avinhão; o «Grande Cisma do Ocidente»
[1378-1418].
Marginais e minorias religiosas nos finais da Idade Média. Intolerância e repressão. Outros sintomas de mal
estar e de descrédito institucional. A busca individual da religião e do culto. A Imitação de Cristo e a
«devotio moderna». Clima de contestação e desejos de reformas. O Cristianismo oriental: da segregação ao
desaparecimento de Constantinopla [1453]: Bizantinos e Eslavos.


Bibliografia seleccionada:
Obras gerais:
Fliche, A. e Martin, V., (dir), Histoire de l’Église depuis les origines jusqu’à nos jours, Paris, Bloud et Gay,
1938 s. (vols. 4-14, especialmente)
Jedin, H. (dir.), Manual de Historia de la Iglesia, Barcelona, 1966-1969 (vols. 2 - 4)
Mayeur, J.-M., Pietri, Ch. e L., Vauchez, A., Venard, M. (dir.), Histoire du Christianisme, Paris, Desclée,
1990 (vols. 3-6) [a melhor obra e a mais actualizada]
Chelini, J., Histoire religieuse de l’Occident médiéval, Paris, Hachette, 1991
Le Goff, J. Brémond, R. (dir.), Histoire de la France Religieuse, Paris, 1987, vol. II.

Fonte:

Universidade de Lisboa
Professor Armando Martins

31/07/2013

Mosteiro Suiço do Séc. IX: Saint Gall

Localiza-se na cidade de St. Gallen, na Suíça, e foi durante muito tempoconsiderado o principal mosteiro beneditino da Europa.


As suas origens parecem estar descritas num documento muito raro descobertona Biblioteca de St. Gallen, no qual estão contidas instruções de um projeto-padrão utilizado e adaptado às necessidades circunstanciais de um mosteiro. Asdiretrizes presentes neste documento deverão ter sido aprovadas num concílioreunido em Aix-la-Chapelle (Aachen, na Alemanha) entre 816 e 817, quandoeste documento foi enviado ao abade beneditino de St. Gallen.

O mosteiro constituiria um conjunto autossuficiente, formado por um retângulode 152 metros por 213, que interiormente era formado por uma hospedaria,estábulos e duas torres, com diversas entradas. Duas do lado da abside daigreja e outras nos flancos norte e sul.

O mosteiro teria uma igreja para o serviço religioso, um claustro do lado sul, emvolta do qual se situavam outras dependências, tais como o dormitório (leste),o refeitório, a cozinha (sul) e a adega. A norte o mosteiro teria igualmente umahospedaria, uma escola e a residência do abade. A leste encontrar-se-ia aenfermaria, uma capela e os alojamentos para os noviços, bem como ocemitério. No flanco meridional estariam as oficinas e os celeiros. Este mosteiro,como todos os outros que seguiam este plano, não respeitava integralmenteesta estrutura, podendo omitir alguns dos pormenores da planta enunciadaneste documento.
O Mosteiro de St. Gallen foi, em 1983, considerado Património Mundial daUNESCO.

"Saint Gall, O designado plano ideal do Mosteiro Suiço do Séc. IX (in Christian Norberg - Schulz, 2001) 

1. Igreja: a) Sala de escrever no piso térreo; biblioteca no piso superior;
 b) Sacristia no piso térreo; guarda-roupa das vestes litúrgicas no piso superior;
 c) Celas para irmãos da ordem que estiverem de passagem; 
d) Residência do reitor da escola externa; 
e) Residência do guardião; 
f) Sala de recepção de hóspedes importantes e para a escola externa; 
g) Sala de recepção para todos os visitantes do mosteiro; 
h) Sala de recepção para a Casa do Peregrino, o Hospício e os edifícios administrativos;
 i) Residência do administrador da Casa do Peregrino e do Hospício;
 i) Locutório dos monges; 
k) Torre de São Miguel; 
l) Torre de São Gabriel; 
2. Sacristia; 
3. Dormitório de monges no piso superior; caldeira auxiliar no piso térreo; 
4. Banhos dos monges; 
5. Lavatórios dos monges;
 6. Refeitório dos monges no piso térreo; guarda roupas no piso superior; 
7. Adega de vinho e cerveja dos monges no piso térreo; dispensas no piso superior; 
8. Cozinha dos monges; 
9. Padaria e cervejaria dos monges; 
10. Cozinha, padaria e cervejaria dos hóspedes importantes; 
11. Casa para hóspedes importantes; 
12. Escola externa; 
13. Casa do abade; 
14. Cozinha, despensa e banho do abade; 
15. Casa para sangrias; 
16. Casa do médico; 
17. Noviciado e hospital; 
18. Cozinha do noviciado; 
19. Banho do noviciado; 
20. Casa do jardineiro; 
21. Galinheiro; 
22. Frangos e gansos; 
23. Cercado para gansos; 
24. Ganadaria; 
25. Atelier de artesãos; 
26. Anexo do atelier de artesãos; 
27. Moinhos; 
28. Fornos;
 29. Forno da cal; 
30. Silo de cereais para cerveja; 
31. Casa do Peregrino e Hospício; 
32. Cozinha, padaria e cervejaria para peregrinos; 
33. Estábulo para cavalos e bois, alojamento do estabuladeiro;
 34. Alojamentos para o exército do imperador (a identificação não é segura); 
35. Curral das ovelhas e alojamento do pastor; 
36. Curral para as cabras e alojamento do cabreiro; 
37. Estábulo para as vacas e alojamento do vaqueiro; 
38. Alojamento para os serventes das propriedades externas e para os serventes pertencentes ao exército do imperador; 
39. Pocilga e alojamento do porqueiro; 
40. Estábulo de águas prenhas e de potros e alojamento do cuidador; W. Claustro; X. Jardim de ervas medicinais; Y. Sementeira e horto; Z. Jardim de ervas medicinais.

 Fontes

 Lopes,Hugo. 


Vida monástica no cristianismo

A vida monástica no cristianismo surgiu como uma forma de busca por uma vida de maior consagração a Deus, com o objetivo de se afastar do mu...