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22/07/2015

A BIBLIOTECA COPTA DE NAG HAMMADI UMA HISTORIA DA PESQUISA

 Chaves, Julio Cesar Dias .Oracula, S„o Bernardo do Campo, 2.4, 2006 ISSN 1807-8222
Mestrando em CiÍncias da Religi„o pela UniversitÈ Laval, QuÈbec, Canad·.

RESUMO

 Em 1945, perto da cidade moderna de Nag Hammadi, Alto Egito, uma coleÁ„o de manuscritos coptas antigos foi encontrada. Esta coleÁ„o de treze cÛdices, feitos de papirus e cobertos com couro, recebeu dos especialistas o nome de Biblioteca Copta de Nag Hammadi. Ela abrange textos teolÛgicos e filosÛficos, a maioria deles crist„os, e boa parte deles gnÛsticos. Este artigo È uma discuss„o introdutÛria sobre esta coleÁ„o de textos. PALAVRAS-CHAVE: Nag Hammadi, cristianismo primitivo, gnosticismo, literatura copta, Egito.

INTRODUÇÃO

Os sÈculos XIX e XX presenciaram uma sÈrie de descobertas arqueolÛgicas importantÌssimas para o estudo das religiıes da antiguidade, sobretudo o judaÌsmo, o cristianismo e outras crenÁas ligadas direta ou indiretamente a estas, como o gnosticismo e o maniqueÌsmo, por exemplo. E ainda, desde a segunda metade do sÈculo XIX, o volume de ediÁıes, publicaÁıes e traduÁıes de fontes antigas relativas aos estudos de religi„o aumentou consideravelmente. N„o resta d˙vida de que o estudo histÛrico destas religiıes antigas deve necessariamente se apoiar em fontes prim·rias. PÙde-se presenciar, portanto, um grande aumento no interesse pelo estudo do cristianismo primitivo, do judaÌsmo antigo e ainda de correntes religiosas ditas herÈticas, caso, por exemplo, dos j· citados maniqueÌsmo e gnosticismo. AtÈ ent„o, o n˙mero de fontes relativas ‡s manifestaÁıes religiosas da antiguidade tidas como marginais era consideravelmente baixo. Com exceÁ„o de fragmentos de textos conservados em citaÁıes da literatura patrÌstica, ou alguns poucos documentos conservados
pela tradiÁ„o das igrejas crist„s, dispunha-se de quase nada para o estudo destas manifestaÁıes religiosas. Foram muito poucos os documentos que sobreviveram ao tempo e ao processo de canonizaÁ„o e exclus„o progressiva de textos por parte das igrejas crist„s apartir dos sÈculos IV e V. Leia mais

Disciplina do Arcano e o Cristianismo

Disciplina do Arcano¹: Disciplina do Segredo, ou Lei do Arcano, é o termo teológico para expressar o costume que prevaleceu na Igreja primitiva, na qual o conhecimento dos mistérios da religião cristã era, por medida de prudência, cuidadosamente mantido oculto aos gentios, aos não-iniciados e até mesmo aos que se submetiam à instrução na fé, para evitar que aprendessem algo que pudessem fazer mau uso, o costume pendurou-se até o séc. VI. (  Apostolado Veritatis Splendor )

por  Bilheiro, Ivan  Graduando em História pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora - MG. Email: ivanbilheiro@bol.com.br 

Disciplina do Arcano e Simbolismo Como já mostrado, “a primeira manifestação da arte cristã está ligada à decoração dos cemitérios subterrâneos” (MONTERADO, 1968, p. 65). Além das já expostas peculiaridades da arte cristã inicial, de técnica, de aplicação, de local, de produtores e alvos da arte, etc; o contexto do Império Romano e das condições de vida dos primeiros cristãos contribuiu para que um novo elemento surgisse: a Disciplina do Arcano. 

“No primeiro século, os sepulcros são ainda particulares, privados, e a decoração é geométrica, enriquecendo-se com elementos tirados da flora e da fauna, segundo o tipo pagão” (Ibid., p. 65). A influência do paganismo, neste início, é tida como inevitável, visto que era esta a idéia arraigada na consciência coletiva, incluindo-se aí os cristãos. Também, é preciso dizer, algumas obras eram executadas por “pessoas de fora” (pagãos), e os temas do paganismo apareciam para evitar que recaíssem suspeitas sobre aqueles que solicitavam o serviço. “Os artistas recorriam [...] a motivos pagãos, dando-lhes, no entanto, uma interpretação cristã” (MAHLER; UPJOHN; WINGERT, 1974, p. 92). Conforme se vê, o cristianismo foi (e ainda é) “[...] uma religião que conseguiu incorporar elementos oriundos de uma variedade de fontes [...]” (BATTISTONI FILHO, 1989, p. 43). “No segundo século, quando as catacumbas se tornam cemitérios comuns, entra o simbolismo, prevalecendo a disciplina do arcano que proibia, rigorosamente, representar os mistérios da religião, por medo de profanação” (MONTERADO, 1968, p. 65 – Grifo do autor). A partir do segundo século, portanto, a arte cristã passou a ser composta, principalmente, por simbolismo. Em síntese, tornou-se uma arte semântica. 

O surgimento da Disciplina do Arcano – regra não expressa, mas difundida de não retratar, explicitamente, mistérios da religião para evitar reconhecimento pelos leigos – refletia o contexto das seguidas perseguições aos cristãos: era preciso que a religião não ficasse discriminável nas obras, que estas só pudessem ser percebidas e interpretadas por iniciados, por integrantes da religião. Assim, a arte cristã voltou-se para a representação de símbolos. Até mesmo as simples estruturas geométricas, mais largamente utilizadas no século I, foram reinterpretadas a fim de cumprir um novo papel. O simbolismo deu, logicamente, grande força ao Cristianismo. Ao mesmo tempo em que protegia os cultos e a expressão dos fiéis, auxiliava na representação e na compreensão de conceitos religiosos: “A idéia de Deus não pode ser expressa por um quadro; não pode ser plenamente expressa nem mesmo em palavras; o símbolo é um meio de transmitir uma idéia demasiado tremenda para a expressão humana” (ANSON & CONALY, 1969, p. 1104).

 “Um dos aspectos mais importantes dessa iconografia diz respeito aos fenômenos sincréticos de transposição de temas não-cristãos em temas cristãos.” (ALET, 1994, p. 51) As catacumbas deixaram de ser usadas somente no século V, ainda que já houvesse liberdade de culto no Império, extensiva ao Cristianismo, bem como esta religião já fosse estatal. Já o simbolismo não foi totalmente suprimido, embora tenha perdido a força que o fez nascer por conta da liberdade de culto e tenha diminuído em muito, dando lugar às representações menos misteriosas, geralmente de passagens bíblicas. Houve, então, um processo de mistura de elementos diversos e de variadas fontes. Imagens simples que muitas vezes somente adornavam obras foram re-significadas, bem como imagens dos cultos pagãos e outras imagens de elementos simples da vida cotidiana. 5)

 Considerações finais 

Como se pode notar, a perseguição aos cristãos fez nascer uma das armas utilizadas por eles para propagação da fé. A Disciplina do Arcano deu origem ao simbolismo da religião cristã, o qual é utilizado até os dias atuais. Contrariamente à arte usual (e ao conceito que se faz desta), a arte cristã do período das perseguições passou a ser criada a fim de ter conceitos embutidos, significado interno de coisas e/ou idéias exteriores. 

O estudo da arte deste período permite observar o dinamismo da Igreja, quando ainda embriônica, e a capacidade de adaptação, não só da instituição em si, mas também dos fiéis. Assim, por exemplo, a simples forma geométrica do círculo passou a representar Jesus Cristo, e quando vinha este símbolo sobre uma cruz, significava a crucificação (considerado o fato de que as cruzes eram, geralmente, evitadas, por serem um símbolo bem óbvio da perseguida religião), e, nesse caso, nota-se o sincretismo simbólico com o Deus-sol do paganismo; ou o mesmo símbolo podia servir para representar a eternidade de Deus. 

As apropriações e re-significações de temas pagãos e laicos são provas disso, bem como a capacidade criativa de escapar da perseguição ao culto quando ainda se mantinha à margem da sociedade romana. Todo esse cenário que permitiu o aparecimento da Disciplina do Arcano e do conseqüente e inevitável simbolismo cristão foram, sem dúvida, fundamentais na história da Igreja, para que esta pudesse se tornar uma das instituições mais bem sucedidas na história da humanidade. Muitos outros símbolos foram sendo criados, como o peixe, que representava, também, Jesus. Este símbolo foi escolhido porque, em grego, a palavra peixe forma um acróstico das iniciais de “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”, também em grego. 

O símbolo do peixe também era utilizado para reconhecimento mútuo entre os cristãos. A força de comunicação dos símbolos é inquestionável e adaptou-se muito bem à linguagem religiosa (ou esta adaptou-se muito bem à linguagem dos símbolos), e a junção das duas permitiu, em aliança com outros fatores, a construção da base de uma das instituições mais bem sucedidas na história da humanidade.

Revista Urutágua – revista acadêmica multidisciplinar – http://www.urutagua.uem.br/015/15bilheiro.pdf Nº 15 – abr./mai./jun./jul. 2008 – Quadrimestral – Maringá – Paraná – Brasil – ISSN 1519-6178 

16/07/2015

Texto da Palestra dada pelo Pe. Luiz Alves de Lima SOBRE Iniciação à Vida Cristã, no I Nordestão de Catequese, em novembro de 2013

I – Iniciação à Vida Cristã A expressão procura traduzir a comunicação de uma fé que não se reduz à intimidade com Jesus Cristo, mas que tenha reflexos e influências vitais na própria existência, levando à participação da comunidade, que no seu conjunto, deve dar Testemunho do Evangelho. “Apesar de todo esforço, o modelo atual de transmissão da fé é precário! A Iniciação Cristã é pobre e fragmentada” (DAp 287). Temos uma multidão de iniciados ontologicamente na fé, mas não existencialmente! (falsa compreensão do princípio: “ex opere operato”). A catequese, como a temos hoje, é fruto de uma longa história. Ela nasceu dentro da estrutura do CATECUMENATO, ou seja, do processo de iniciação cristã, como o longo momento do ensino, da instrução, do aprofundamento doutrinal… Mas tudo isso estava rodeado de muitas outras práticas, que ao longo dos séculos desapareceram… Restou só esse grande momento do ensino, chamado “catequese”…Viviase a época da cristandade! Na verdade, quem iniciava mesmo na fé, era esse ambiente e ar cristão que se respirava por todo lado! Num clima de cristandade tudo já leva à prática cristã. O grande esforço da Pastoral era alimentar e fortificar a fé. 

Hoje: Igreja Missionária. Era (é) uma pastoral mais de conservação ou manutenção, do que propriamente de avanços e conquistas. A catequese, em geral para crianças, se dedicava mais à doutrina... A primeira adesão a Jesus Cristo já era suposta, como fruto da família. Diz o nº 38 das Diretrizes Gerais: “Em outras épocas a apresentação de Jesus se dava através de um mundo que se concebia cristão. Família, sociedade e escola em geral, ao mesmo tempo em que ajudavam a inserir na cultura, apresentavam também a pessoa e a mensagem de Jesus”. E o nº 39 das mesmas Diretrizes Gerais. “Em outras épocas, era possível pressupor que: o primeiro contato com a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo acontecia em sociedade, possibilitado pelos diversos mecanismos culturais, fazendo com que a ação evangelizadora se preocupasse mais com a purificação e a retidão doutrinais, com a moral e com os sacramentos”. 

O mundo mudou! O Evangelho já não influencia toda sociedade... Em muitos lugares já se vive uma espécie de pós-cristianismo (CT 57; DGC 110)! Para muitos de nossos contemporâneos o cristianismo já não diz mais nada... não é significativo. . . Ainda as novas DG: Em nossos dias, meios utilizados em outros tempos para o anúncio de Jesus Cristo, já não possuem a mesma eficácia de antes. Olhemos a família, chamada a ser a grande transmissora da fé e dos valores. Tamanhas têm sido as transformações que a instituição familiar já não possui o mesmo fôlego de outras épocas para cumprir essa missão indispensável... Essa situação exige uma radical transformação no modo de concretizar a ação evangelizadora. Aparecida 100d: “Na evangelização, na catequese e, em geral, na pastoral, persistem também linguagens pouco significativas para a cultura atual e em particular, para os jovens. Muitas vezes, as linguagens utilizadas parecem não levar em consideração a mutação dos códigos existencialmente relevantes nas sociedades influenciadas pela pósmodernidade e marcadas por um amplo pluralismo social e cultural”. “As mudanças culturais dificultam a transmissão da Fé por parte da família e da sociedade. Frente a isso, não se vê uma presença importante da Igreja na geração de cultura, de modo especial no mundo universitário e nos meios de comunicação”. Diante desse quadro, “hoje a Igreja retoma e renova sua consciência missionária: ela existe para evangelizar. Esta é sua graça e vocação própria, sua mais profunda identidade (cf. EN 14). No centro dessa questão missionária está o conceito de “evangelizar”! Ou seja “proclamar a Boa Nova de Jesus Cristo”. A Evangelização é propriamente o anúncio de Jesus Cristo, do QUERIGMA! Ou seja: a essência do Evangelho. Todo o sentido e a própria razão de ser da Igreja está em sua ação missionária na sociedade. Ela deve tornar visível e atuante na história a salvação de Jesus Cristo, ela deve ser um autêntico sacramento. Portanto, sua identidade mais profunda é: ser missionária, estar voltada para o mundo, fazer-se compreendida e significativa para seus contemporâneos. 

O NT está cheio de formulações querigmáticas: Jesus é o Senhor, é o único Salvador. Ele morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa salvação! Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. E a vida eterna é esta: que Te conheçam a Ti, ó Pai, como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que tu enviaste. Em nosso contexto de um mundo descristianizado, a Catequese assume as características da Evangelização. É uma catequese evangelizadora! Cristo no Centro. A centralidade da proposta de Jesus Cristo. O CRISTOCENTRISMO é um dos princípios fundamentais da evangelização e catequese. O cristocentrismo é trinitário: Jesus revela e conduz ao Pai e ao Espírito Santo O fim de toda a vida cristã é o Pai. Jesus é o “caminho” que conduz ao Pai no Espírito Santo. “Mudanças de época... São tempos propícios para a volta às fontes e busca dos aspectos centrais da fé. Esta é a grande diretriz evangelizadora que, nesse início de séc. XXI acompanha a Igreja: não colocar outro fundamento que não seja Jesus Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre” (DG 2011-2015 nº 240) Aparecida convida “abandonar as ultrapassadas estruturas que já não favoreçam a transmissão da fé” e a uma “conversão pastoral e renovação missionária...” 

(no.375) Conversão Pastoral em Aparecida: Terceira Parte: A VIDA DE JESUS CRISTO PARA NOSSOS POVOS Capítulo 7 - A MISSÃO DOS DISCÍPULOS A SERVIÇO DA VIDA PLENA 7.2 Conversão pastoral e renovação missionária das comunidades No. 280 - Bispos, presbíteros, diáconos permanentes, consagrados e consagradas, leigos e leigas, somos chamados para assumir uma atitude de permanente conversão pastoral, que implica escutar com atenção e discernir “o que o Espírito está dizendo às Igrejas” (Ap 2, 29). No. 384 de Aparecida: A Conversão pastoral de nossas comunidades exige que se passe de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária. Assim, será possível que “o único objetivo do Evangelho continue a penetrar na historia de cada comunidade eclesial” (NMI 12) com novo ardor missionário, fazendo com que a Igreja se manifeste como una mãe que sai ao encontro, uma casa acolhedora, uma escola permanente de comunhão missionária. As Diretr. Gerais citam Aparecida nº 26: “Uma verdadeira conversão pastoral deve estimular-nos e inspirar-nos atitudes e iniciativas de autoavaliação e coragem de mudar e coragem de mudar várias estruturas pastorais em todos os níveis, serviços, organismos e associações. Temos a necessidade urgente de viver na Igreja a paixão que norteia a vida de Jesus Cristo: o Reino de Deus, fonte de graça, justiça, paz e amor. 

Por esse Reino, o Senhor deu sua vida”. Conversão Pastoral: Conversão de uma Igreja de cristandade para uma Igreja missionária; Conversão à realidade do mistério e iniciação a ele; Conversão à recuperação da unidade dos três Sacramentos: Batismo, Confirmação e Eucarístia. Conversão ao catecumenato pré e pós batismal; Aparecida faz distinção entre: INICIAÇÃO CRISTÃ (como catequese básica) e CATEQUESE PERMANENTE (formação continuada) As Diretrizes Gerais falam até em “processo permanente de iniciação” (42), ela deve acontecer não apenas uma vez na vida, mas no sentido que a IVC “não se esgota nos sacramentos do Batismo, Crisma e Eucaristia” (41). O certo é que “o estado permanente de missão só é possível a partir de uma efetiva Iniciação à Vida Cristã” (39) “Assumir a iniciação cristã exige não somente uma renovação da catequese, mas também uma reestruturação de toda a vida pastoral da paróquia”. “Propomos que o processo catequético de formação adotado pela Igreja [primitiva] para a iniciação cristã seja assumido em todo o Continente como a maneira ordinária e indispensável de introdução na vida cristã e como a catequese básica e fundamental. Depois, virá a catequese permanente que continua o processo de amadurecimento da fé”. (DAp 294). A dimensão missionária da iniciação cristã “deve impregnar todas as estruturas eclesiais e todos os planos pastorais da Diocese, paróquias, comunidades religiosas, movimentos e de qualquer instituição da Igreja”. (DAp 365). Processo de iniciação à vida cristã: muito mais exigente e comprometedor do que a tradicional “preparação para os sacramentos” E ainda as Diretrizes Gerais nº 39: “O estado permanente de missão só é possível a partir de uma efetiva iniciação à vida cristã” E no nº 40: “é preciso ajudar as pessoas a conhecer Jesus Cristo, fascinar-se por Ele e optar por segui-Lo”. O Catecumenato descrito no RICA não é só para adultos não batizados, mas também para batizados, não plenamente iniciados ou que querem aprofundar a própria iniciação. Grandes documentos do Concílio: GAUDIUM ET SPES E AD GENTES – Vigência e importância da GS no pós-concílio: diálogo com o mundo, transformação social. A redescoberta da AG hoje: contexto missionário, catecumenal. Hoje mudança de paradigmas. Não só renovar algumas metodologias, novos subsídios e melhorar a formação de catequistas. Não é suficiente uma “maquiagem” no atual modelo. Trata-se de alterar a própria estrutura da tradicional “preparação para os sacramentos” e propor um novo paradigma evangelizador -catequético. Esquema do Texto Baseia-se no insistente pedido de Aparecida: “Impõe-se a tarefa irrenunciável de oferecer uma modalidade [operativa!] de iniciação cristã, que além de marcar o quê, dê também elementos para o quem, o como e o onde se realiza. Dessa forma, assumiremos o desafio de uma nova evangelização, à qual temos sido reiteradamente convocados” (nº 287). A esses 4 elementos (o quê, quem, como e onde) acrescentou-se: por quê? onde? Quem irá fazer isso? Esquema do Texto IVC O texto ficou estruturado em cinco capítulos I – Iniciação à vida cristã: por quê? - Motivações – Therezinha Cruz II – Iniciação à vida cristã: o que é? - Natureza – Pe. L. A. Lima III – Iniciação à vida cristã: como? - Metodologia – Pe. D. Ormonde – Dom Manoel João IV – Iniciação à vida cristã: para quem? - Destinatários – Interlocutores – Ir. Marlene Santos V – Iniciação à vida cristã: com quem? onde? - Agentes e Lugares - Ir. Israel Nery. Cap. I – MOTIVAÇÕES E RAZÕES: POR QUE A INICIAÇÃO CRISTÃ? Parte da indagação sobre o sentido da vida: buscar a fonte do mistério da própria existência, a resposta da fé, insuficiência de respostas apenas doutrinais, adesão vital a Jesus Cristo. O PROCESSO INICIÁTICO é uma necessidade religiosa e antropológica Importância dos ritos, símbolos, celebrações na realidade humana. JESUS assim procedeu: formou aos poucos, houve etapas no envio, na missão, no aprofundamento dos “segredos do Reino”. Os caminhos das primeiras gerações cristãs: o catecumenato. A eficácia do Catecumenato primitivo. Os cristãos formados pelo processo catecumenal e sua influência na sociedade. O DESENVOLVIMENTO DO CATECUMENATO seu início (séc. II), seu ponto alto (séc. III – V) e sua decadência (séc. VI). Cristandade: o catecumenato social (a partir do séc. VII... até hoje?) Apesar dos maravilhosos frutos da Evangelização em muitos lugares e situações: houve e há mais sacramentalização (célebres desobrigas!) que verdadeira iniciação à vida cristã. Fenômeno histórico da secularização e descristianização... medíocre pragmatismo (Ratzinger). Aparecida questiona a maneira como educamos na fé e alimentamos a experiência cristã..: “É um desafio que devemos encarar com decisão, com coragem e criatividade, visto que em muitas partes a iniciação cristã tem sido pobre e fragmentada” (DAp 287). Aparecida: “Uma comunidade que assume a iniciação cristã renova sua vida comunitária e desperta seu caráter missionário. Isso requer novas atitudes pastorais por parte dos bispos, presbíteros, pessoas consagradas e agentes de pastoral” (DAp 291). Perguntas: 1. Aí em sua realidade, quais costumam ser os motivos que as pessoas têm para se aproximar ou se afastar da Igreja? 2. Como seria para você, uma comunidade atraente, de testemunho convincente? 3. Você conhece pessoas batizadas que não se sentem Igreja? Porque será que isso acontece? II – O QUE É INICIAÇÃO Iniciação está sempre relacionada ao mistério. Muitas não se entende o que é Iniciação pois não se entende o que é Mistério... Iniciação não é curso, estudo, treinamento... é muito mais!!! O Catecumenato se inspira em práticas antigas de religiões pagãs (religiões mistéricas). Trata-se de um processo de iniciação, no sentido mais profundo e rico. Etimologia: in - ire = ir para dentro In-iter = en-caminhamento Intro-ducere = conduzir para dentro, introdução. A palavra Iniciação não se encontra na Bíblia, mas muito a palavra Mistério. A Iniciação era uma prática comum, mas não uniforme em todas as comunidades já espalhadas por toda bacia do Mediterrâneo. “A vós é confiado o mistério do Reino de Deus” (Mc 4, 11) Mistério aparece pouco no Antigo Testamento, é muito usado no Corpus Paulinum; significa o desígnio divino de salvação, que para Paulo se concentra na pessoa de Jesus, sua vida, morte e ressurreição. Paulo contrapõe a “sabedoria humana” à “sabedoria misteriosa” de Deus (1Cor 2,7) e diz que sua missão é fazer conhecer a gloriosa riqueza deste mistério em meio aos gentios, ou seja, “o Cristo no meio de vós, esperança da glória” (Cl 1,27) e também iniciar os cristãos “no pleno entendimento e no conhecimento do mistério de Deus, que é Cristo, no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (cf. Cl 2,2) IVC 39. A mensagem cristã apresentada como mistério leva naturalmente à realidade da iniciação. Mistério: algo de fascinante, sublime, fantástico, inacessível, surpreendente, deslumbrante... segredo que se manifesta somente aos iniciados. O que é iniciação? É um processo exigente: um itinerário prolongado de preparação e compreensão vital, de acolhimento dos grandes segredos da fé (mistérios), da vida nova revelada em Cristo Jesus e celebrada na liturgia. A catequese, como elemento importante da iniciação à vida cristã, implica: um longo processo vital de introdução dos cristãos ainda não iniciados, seja qual for a sua idade, nos diversos aspectos essenciais da fé cristã. Não confunda estes conceitos: - Enigma e Mistério - Impossível e Mistério - Incognoscível e Mistério - Milagre e Mistério - Mito e Mistério - Problema e Mistério - Segredo e Mistério Não se trata de tudo, mas de um todo elementar e coerente, que forneça base sólida para a caminhada cristã "rumo à maturidade em Cristo". (cf Ef 4,13) A catequese é iniciação aos mistérios da fé. Mistério não é algo intelectual, mas uma realidade, um fato, uma ação, uma experiência vital celebrada e realizada no rito sacramental. MUOTENPLOV = Mystérion = grandes gestos de Deus salvando, desígnios do Pai “escondidos desde toda eternidade e agora revelados em Jesus Cristo”. Mistério = é Deus em nós agindo, salvando. É a revelação do amor do Pai que se torna visível na vida de seu Filho J. Cristo (ações e palavras) e que se prolonga na Igreja. É a presença do ausente! Tertuliano, para fugir da confusão do mistério cristão com os difundidíssimos e abundante O acesso ao mistério não é através de ensino teórico, ou aquisição de certas habilidades. É preciso ser iniciado a essas realidades maravilhosas através de experiências que marcam profundamente a pessoa. Os ritos iniciáticos, tão desenvolvidos na antiguidade... São um caminho eficaz para essa experiência. E mistérios pagãos traduziram por Sacramentum, ou seja, uma marca indelével que o soldado recebia... Outros padres latinos (como S. Ambrósio: De Misteriis) mantiveram o termo original, ou os dois. Mistério é uma realidade salvífica, objeto de Revelação, que se transmite na iniciação religiosa; por isso, se destina só aos “iniciados” (o arcano). Sentido derivado: segredo, coisa oculta, sinal sagrado... Sacramento (CNBB: Bíblia Sagrada, vocabulário final). O acesso ao mistério não é através de ensino teórico, ou aquisição de certas habilidades. É preciso ser iniciado a essas realidades maravilhosas através de experiências que marcam profundamente a pessoa.

 Os ritos iniciáticos, tão desenvolvidos na antiguidade... São um caminho eficaz para essa experiência. Os cristãos lançaram mão da dinâmica das religiões iniciáticas para a transmissão do mistério cristão cujo conteúdo é NOVO ! Para participar do mistério de Cristo Jesus era preciso passar por uma experiência impactante de transformação pessoal e deixar-se envolver pela ação do Espírito. O processo de transmissão da fé tornou-se, sim, iniciático em sua metodologia: descobrir o mistério da pessoa de Jesus e os mistérios do Reino, assumir os compromissos de seu caminho, viver a ascese requerida pela moral cristã... são realidades muito exigentes: Sem um verdadeiro processo de iniciação (catecumenato) não se alcança seu verdadeiro sentido. Quais são estes mistérios? Jesus Cristo Igreja, Sacramentos! mistérios. Jesus Cristo é o Sacramento do Pai. A Igreja é o Sacramento de Jesus Cristo. Os 7 sacramentos são os grandes sinais pelos quais a Igreja manifesta e realiza a ação de Deus que salva hoje! A catequese hoje adquire uma característica iniciática!! A dimensão catecumenal significa que a catequese é: - Experiência de Deus - Aprendizado de leitura bíblica - Celebrativa (símbolos e sinais) - E orante = Escola de oração O que é iniciação? A iniciação consiste num processo a ser percorrido, com metas, exercícios e ritos. Considerada como parte da iniciação cristã, a catequese não é uma supérflua introdução na fé, nem um verniz ou um cursinho de admissão à Igreja. O processo da iniciação: É um processo exigente: um itinerário prolongado de preparação e compreensão vital, de acolhimento dos grandes segredos da fé (mistérios), da vida nova revelada em Cristo Jesus e celebrada na liturgia. Catecumenato: Caminho antigo e eficiente, desenvolvido pelas comunidades cristãs, aprofundado pelos Santos Padres, acolhido e institucionalizado pela autoridade eclesiástica, núcleo do próprio desenvolvimento do ano litúrgico, gerado nesse processo. A mistagogia. Valor e pedagogia do Rito. Os processos iniciáticos, bem vividos, possuem a capacidade de fazer assimilar vitalmente as grandes experiências cristãs. Necessidade de revalorizar hoje esse itinerário iniciáticocatecumenal. Necessidade de formas de catequese que estejam verdadeiramente a serviço da iniciação cristã, na complexidade de suas exigências, como bem afirmam o Diretório Geral para a Catequese e o nosso Diretório Nacional de Catequese. Iniciação não é missão só da catequese: é trabalho de toda a comunidade, principalmente da dimensão litúrgica e dos ministros ordenados! Urgente união entre Liturgia e Catequese! Ênfase do Documento de Aparecida ao falar da necessidade urgente de assumir o processo iniciático na evangelização: “Ou educamos na fé, colocando as pessoas realmente em contato com Jesus Cristo e convidando-as para seu seguimento, ou não cumpriremos nossa missão evangelizadora” (nº 287). Natureza da Iniciação Cristã Teologicamente, a Iniciação Cristã: 1) É obra do amor de Deus. 2) Esta obra divina se realiza na Igreja e pela mediação da Igreja. 3) Requer a decisão livre da pessoa: sentido dos escrutínios. 4) É a participação humana no diálogo da salvação. O modelo do itinerário catecumenal, em sua dimensão litúrgica é o RICA. Rito de Iniciação Cristã de Adultos. Ele possibilita a elaboração de itinerários diversos, de acordo com as necessidades de cada realidade. É um itinerário cristocêntrico e gradual, impregnado do Mistério Pascal. Itinerário catecumenal: * lugar privilegiado de inculturação; * garante uma formação intensa e integral; * está vinculado a ritos, símbolos e sinais; * e está em função da comunidade cristã. CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO: Que os catecúmenos sejam adequadamente iniciados. Estabelece as condições para admitir um adulto ao batismo (Can. 788, 2; 815, 1) RITUAL A INICIAÇÃO CRISTÃ DE ADULTOS (=RICA) : Propõe itinerário progressivo de evangelização, catequese e mistagogia. Atenção: é um livro litúrgico, não catequético!!! Assim temos o seguinte esquema do RICA (Introdução + 6 capítulos + Apêndices ): Introdução ao Rito de Iniciação Cristã de Adultos Cap. I - Ritos do Catecumenato: -Celebração da entrada no Catecumenato -Ritos para o tempo do Catecumenato -Celebração da eleição – no primeiro domingo da Quaresma -Ritos para o tempo de purificação e iluminação (Quaresma) -Ritos de preparação imediata Batismo (no manhã de Sábado Santo) -Celebração dos Sacramentos de iniciação - na Vigília pascal. Cap. II - Ritos ABREVIADOS do Catecumenato. Cap. III - Rito abreviado de iniciação de adultos - em perigo de morte. Cap. IV - Preparação para a Confirmação e a Eucaristia de adultos que, batizados na infância, não receberam a devida catequese. Cap. V - Ritos de iniciação de criança em idade de catequese. Cap. VI - Textos diversos na celebração de iniciação cristã de adultos. Apêndice - Rito de admissão na plena comunhão da Igreja Católica das pessoas já batizadas validamente. O DIRETÓRIO GERAL PARA A CATEQUESE (1997) e O Diretório Nacional de Catequese (2006) optam por uma catequese a serviço da iniciação cristã. A dimensão catecumenal e iniciática é o vértice da catequese. RICA - RITUAL A INICIAÇÃO CRISTÃ DE ADULTOS É organizado em quatro tempos (períodos) e em três celebrações ou etapas, como passagem para o tempo seguinte. No texto: descrição dos quatro tempos com suas três etapas. Faz distinção entre catecúmenos (não batizados) e catequizandos (já batizados). Itinerário Catecumenal conforme o RICA O pré-catecumenato (1º tempo) Rito de admissão ao catecumenato (1ª etapa) O catecumenato (2º. Tempo) Celebração da eleição/inscrição (2ªetapa) Purificação e iluminação (3º. Tempo) Celebração dos Sacr. da Iniciação (3ª etapa) Mistagogia (4ºTempo). O ITINERÁRIO E AS ETAPAS DA INICIAÇÃO CRISTÃ - CATECUMENATO - CONFORME O RICA PRÉ-CATECUMENATO - Etapa do acolhimento na comunidade cristã - Primeira evangelização - Inscrição e colóquio com o catequista. - Ritos Celebração da Entrada CATECUMENATO - Etapa suficientemente longa para: CATEQUESE – REFLEXÃO - APROFUNDAM. – - Vivência cristã (conversão) - Entrosamento com a Igreja. - Ritos Celebração da Eleição PURIFICAÇÃO E ILUMINAÇÃO - QUARESMA - Preparação próxima para Sacramentos - CATEQUESE - Práticas quaresmais (CF, etc.) - Ritos Celebração dos Sacramentos de iniciação cristã na Vigília Pascal MISTAGOGIA Aprofundamento e vivência do mistério cristão-mistério pascal. Terminada a IVC o cristão continua sua formação permanente na C. Nas etapas (grandes celebrações da passagem de um tempo para o outro) são feitas as entregas: - Palavra de Deus - Símbolo da Fé (Credo) - Oração do Senhor... e outras. - Outros rituais: unções, exorcismos, escrutínios. Características complementares O catecumenato é caracterizado pela: - a atenção à formação integral e vivencial, - a dimensão orante, - a prática da caridade e a renúncia de si mesmos, - acompanhamento dos introdutores, - a contribuição dos padrinhos e membros da comunidade, - a participação gradativa nas celebrações da comunidade, - e estímulo ao testemunho de vida, - Íntima cooperação entre catequese e liturgia. Os conteúdos da Catequese dentro do Catecumenato, são os mesmos apresentados pelo DGC e DNC: as sete pedras fundamentais: - As quatro colunas da exposição da fé (dimensão racional, doutrinal) - e As três etapas da história da salvação (dimensão narrativa, vital). As quatro colunas, provindas da tradição dos catecismos, são: a) Crer em Deus, uno e trino, Criador-Salvador-Santificador e seu desígnio salvífico (Credo); b) Celebrar o mistério pascal nos sacramentos que têm o batismo e eucaris-tia como centro (Liturgia -Sacramentos); c) Viver o mandamento do amor a Deus e ao próximo (Bem-aventuranças - mandamentos); d) Rezar para que o Reino se realize (Pai-Nosso). E as três etapas da história da salvação, conteúdo catequético provindo da tradição patrística, são: Antigo Testamento: primeira aliança e prefiguração da nova; Novo Testamento: realização em Jesus Cristo e comunidade apostólica; História da Igreja: desde sua fundação aos dias de hoje. O Catequista hoje, mais do que um pedagogo, deve ser um mistagogo. A palavra mistagogia vem do grego miste + agein. Misté+aguéin = ou seja conduzir ao mistério: Assim como Pedagogia = paidos + agein. Paidós +aguéin = ou seja conduzir a criança. e) Organize-se uma Comissão de Coordenação da Iniciação à Vida Cristã, com os encarregados da tradicional preparação ao Batismo, à Confirmação e à Eucaristia, a ser substituída pelo processo da Iniciação à Vida Cristã. Essa equipe é fundamental para o bom desenvolvimento do processo da Iniciação cf nºs 146-148. Conclusão Palavra final de alegria, otimismo e ação de graças, citando Aparecida: “A alegria do discípulo é antídoto frente a um mundo atemorizado pelo futuro e oprimido pela violência e pelo ódio. [...] Conhecer a Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (DAp 29). Perguntas 1) Quais as propostas deste capítulo que, se forem efetivamente colocadas em prática, ajudarão a transformar a catequese e ajudar a renovar a Igreja? 2) Que sugestões você daria para mudar profundamente o processo de formação dos catequistas e demais agentes de pastoral à luz das orientações desse capítulo? 3) Como deveria ser a mudança das estruturas eclesiais (diocesanas e paroquiais) para que o que se propõe nesse capítulo possa sair do papel e passar para a prática? O SÍNODO E A CATEQUESE O Sínodo dedica duas proposições à catequese. A primeira, tendo em consideração um conceito multissecular de catequese concebida quase que exclusivamente em seu caráter infantil, endereçada à preparação para receber os sacramentos, o Sínodo releva a importância da catequese com adultos, apontando imediatamente para o catecumenato. Assim, pois, afirma a Proposição 28 (intitulada: a Catequese de Adultos): "Não se pode falar de NE se a catequese de adultos for inexistente, fragmentada, fraca ou descuidada”. Quando tais defeitos se fazem presentes, a atividade pastoral se torna um sério desafio.Os tempos, etapas e graus do catecumenato da Igreja mostram como, através da dimensão bíblica, catequética, espiritual e litúrgica, a vida de uma pessoa e sua caminhada de fé podem ser entendidas como uma vocação através da relação com Deus. Nisso, o caráter público da decisão pela fé que o catecúmeno faz, crescendo passo a passo na comunidade e na diocese, tem um impacto positivo em todos os fiéis” (Proposição 28). A 2ª. Proposição a falar da Catequese (no. 29, intitulada "A Catequese, os Catequistas e o Catecismo"), reafirma a importância da catequese na NE, para logo em seguida se deter na pessoa do catequista e do Catecismo da Igreja Católica. Eis o texto: "A catequese renovada é fundamental para a NE. O Sínodo chama a atenção sobre o serviço indispensável que os catequistas prestam às comunidades eclesiais e expressa sua profunda gratidão por sua dedicação. Todos os catequistas, que, por sua vez, são evangelizadores, têm que estar bem preparados. Deve-se fazer todo esforço, dentro das possibilidades da situação local, para proporcionar uma formação de catequistas com um forte caráter eclesial, e que seja igualmente espiritual, doutrinal, bíblica e pedagógica. O testemunho pessoal de fé é, em si mesmo, uma poderosa forma de catequese. O Catecismo da Igreja Católica e seu Compêndio são, antes de tudo, um recurso para o ensino da fé e apoio aos adultos na Igreja em sua missão evangelizadora e de catequese. De acordo com a Carta Apostólica Ministéria Quaedam do Papa Paulo VI, “as Conferências Episcopais, têm a possibilidade de pedir à Santa Sé a instituição do ministério do catequista” (Prop. 29). 

A INICIAÇÃO CRISTÃ NO SÍNODO A Proposição 38 se intitula: A Iniciação Cristã a NE. Num primeiro momento estabelece a importância da Iniciação Cristã dentro da NE, pedindo que ela adquira uma inspiração catecumenal e, consequentemente uma permanente mistagogia. Num momento, timidamente, pede que se dê atenção a uma proposta de Bento XVI em vista de uma mudança na sequência da recepção dos três sacramentos da iniciação. Eis o texto: "O Sínodo declara que a iniciação cristã é um elemento crucial na NE e é o meio pelo qual a Igreja, como mãe, dá à luz seus filhos e se regenera. Portanto, propomos que o tradicional processo de iniciação cristã, que tem se tornado frequentemente em simples preparação próxima aos Sacramentos, seja considerada em todos os lugares com uma inspiração catecumenal, dando maior relevância à permanente mistagogia e, deste modo, tornando-se verdadeira iniciação à vida cristã através dos Sacramentos” (cf. DGC 91). Nesta perspectiva, a situação atual no que diz respeito aos três Sacramentos da iniciação cristã não deixa de ter consequências: apesar da sua unidade teológica, são pastoralmente diversos. Nas comunidades eclesiais essas diferenças não são de caráter doutrinal, mas de critério pastoral. Contudo, o Sínodo pede que se torne um estímulo para as Dioceses e Conferências Episcopais aquilo que o Santo Padre afirmou na Sacramentum Caritatis 18, para que sejam revistas as próprias práticas sobre a iniciação cristã: “Em concreto, é necessário verificar qual seja a prática que melhor pode, efetivamente, ajudar os fiéis a colocarem no centro o Sacramento da Eucaristia, como realidade para qual tende toda a iniciação” (Sacramentum Caritatis 18). (Proposição 38) Ou seja: há uma tímida sugestão que se mude a ordem desses três sacramentos: Batismo, Crisma, Eucaristia.

A RELAÇÃO LITURGIA E CATEQUESE A PARTIR DO RITUAL DA INICIAÇÃO CRISTÃ DE ADULTOS: A iniciação na comunidade primitiva

 RODRIGUES, SÉRGIO AUGUSTO; Dissertação de Mestrado em Teologia Sistemática, na área de concentração em Liturgia. Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, sob a orientação do Pe. Valeriano Santos Costa. 2007 

A iniciação cristã, na Igreja primitiva, era feita através do catecumenato, de forma progressiva, tendo a sua base nos três ritos sacramentais (batismo – confirmação – eucaristia), administrados numa única celebração, na Vigília pascal. 

 Nesta fase da história da Igreja, catequese e liturgia, como iniciação nos costumes cristãos, tinham por objetivo criar no convertido uma atitude pascal, mediante o conhecimento do mistério de Cristo e o apoio da celebração litúrgica da Páscoa, fonte de toda vida cristã. 

1 - A razão de ser do antigo catecumenato 

 A etimologia da palavra catecumenato nos ajuda a entender melhor o seu significado: a palavra catecumenato procede do verbo grego katechein, que significa ressoar, fazer ecoar junto aos ouvidos. Assim, catecúmeno é aquele que está sendo instruído, catequizado; mais concretamente, “aquele que está sendo iniciado na escuta, não de uma palavra qualquer, mas da Palavra de Deus”, de uma palavra que se cumpre na história. A Palavra anunciada pela catequese e proclamada na liturgia. 

As palavras catequese, catecúmeno, catecumenato, provêm do mesmo verbo grego “katechein”. Mas “o uso clássico reservou a palavra catecumenato, para indicar a catequese e iniciação litúrgica dos adultos convertidos que desejavam o batismo”.  Entendese, portanto, por catecumenato em sentido mais clássico, a instituição iniciática de caráter catequético-litúrgico-moral, criada pela Igreja dos primeiros séculos, com a finalidade de preparar e conduzir os convertidos adultos, por meio de um processo constituído por etapas. Este processo conduzia ao encontro pleno com o mistério de Cristo e com a vida da comunidade eclesial, cujo momento culminante se dava pelos ritos de iniciação: batismo, ritos pós-batismais e os outros sacramentos iniciáticos (crisma e eucaristia), normalmente presididos pelo bispo na vigília pascal. O catecumenato é, portanto, uma peça fundamental do conjunto de elementos que compõem o processo de iniciação cristã. Sem ele não se pode considerar que a iniciação tenha chegado à sua plenitude. 

2 - A época apostólica 

 Os elementos do Novo Testamento sobre a iniciação cristã são escassos. Mesmo não encontrando um autêntico e determinado ritual de iniciação, são freqüentes os textos que se referem a uma preparação e a um discernimento anterior à celebração do batismo. 

Prova disso é a descrição viva e impressionante do batismo do ministro da rainha da Etiópia.22 Durante o decurso da leitura escriturística, Filipe anuncia a Boa-Nova de Jesus. Diante do pedido do camareiro pelo batismo vem a resposta: “Sê crês de todo o coração, é possível”. A isso responde o camareiro: “Eu creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus”. Então ele manda parar o carro, ambos descem à água e Filipe batiza o eunuco. Esta descrição atesta os primeiros fundamentos para a instituição do catecumenato: instrução, pedido, exame, profissão e preparação imediata, batismo. O que vem depois é um desdobramento natural, “sem qualquer fixação institucional”.23 Uma das preocupações das primeiras comunidades era, portanto, a preparação de seus candidatos ao batismo24 e, no início da Igreja, não havia algo instituído para tal finalidade. Porém, na comunidade cristã, já estava presente o germe da instituição catecumenal, herança da tradição judaica,25 com um conteúdo catecumenal baseado na mensagem de Cristo e nas mesmas exigências de conversão e de fé para o seu seguimento. O catecumenato, porém, como instituição, não foi criada por Cristo. A ordem do Senhor foi: “Pregai o Evangelho” (Mc 16,15). “Ensinai a todas as nações” (Mt 28,19) e batizai-as. “Quem crer e for batizado será salvo” (Mc 16,16). Portanto, desde o início há, no ato sacramental da administração do batismo, uma união tão íntima entre a pregação da Boa Nova, a instrução na fé, o ingresso nas fileiras dos discípulos e o cumprimento de tudo isso,

de modo que a instrução deve preceder ao menos como condição. Cristo uniu o batismo ao anúncio e o conhecimento da Palavra e à iniciação na vida e nos costumes cristãos.26 Os primeiros cristãos agiram como Jesus tinha mandado. Pregaram e batizaram a partir do Pentecostes.27 O livro dos Atos dos Apóstolos revela a ligação entre a catequese e a liturgia: reuniam-se para ouvir a Palavra, partir o pão e tomar parte da vida comunitária e praticar a caridade.28 O evangelista Lucas, no relato dos discípulos de Emaús, amplia o quadro e apresenta um paradigma de integração: a realidade da vida29 a Palavra iluminadora;30 a celebração (fração do pão)31 e a missão.32 As comunidades implantadas e organizadas pelos apóstolos sabiam distinguir entre catequese e liturgia. Pois, o Senhor havia enviado os apóstolos para ensinar e batizar e fazer todos seus discípulos.33 Portanto, alguém se torna discípulo de Jesus na Igreja através da ação litúrgica e da ação evangelizadora da catequese. Isto mostra que, na Igreja apostólica, liturgia e catequese estavam intimamente ligadas entre si na iniciação cristã.  

3 - O antigo catecumenato 

 O catecumenato, no século I, ainda não existe como instituição codificada; o que existe, certamente, é o “processo catecumenal como verdade vivida”.34 O que havia era desde os primeiros tempos da Igreja o firme propósito de discernir a autenticidade dos candidatos ao batismo com a ajuda dos padrinhos e de uma catequese adequada.35 A Igreja vive, no início, uma situação de perseguição em um ambiente pagão e hostil; tem dificuldade de manter a fé, sente a urgência de aprofundar a conversão e de conservar a unidade eclesial. Consciente de que tudo isto exige preparação e discernimento sérios, estabelece um processo catecumenal por etapas em vista de uma conversão sincera e da transformação total de vida.

A grande expansão do cristianismo e o grande número de candidatos levam a pensar numa formação mais profunda e mais exigente daqueles que chegam à fé, numa época em que, de um lado, as perseguições e, de outro, as seitas heterodoxas já tinham levado cristãos à apostasia.


Na segunda metade do século II, a comunidade cristã começa a fazer maiores exigências aos candidatos ao Batismo. Temos, portanto, um ambiente propício para o desenvolvimento do catecumenato, como instituição seriamente organizada. “Os séculos seguintes irão desenvolver, até a perfeição, a instituição do catecumenato, que encontramos no fim do século II”.38 A elaboração de um ritual orgânico e completo começa, portanto, a delinear-se nesta fase e passa a ser um fato no século III, pois a Igreja, diante das heresias,39 se obriga a precisar melhor sua doutrina em fórmulas definitivas e fazer maiores exigências aos candidatos ao Batismo. Na Didaqué, fala-se do batismo, depois de ter sido apresentada a doutrina dos “dois caminhos”,40 há um nexo entre o ensinamento ou catequese e Batismo, que é precedido pelo jejum.41 Segue-se, após o tema do Batismo o do Pai Nosso e da Eucaristia,42 o que poderia ser já um indício do itinerário da iniciação cristã. O mesmo itinerário encontra-se na Apologia I de Justino, em que a relação entre catequese e banho batismal é mais clara. Na descrição de Justino, já se pode entrever um esboço do catecumenato.43 Consideração maior, porém, é a Tradição apostólica, 44 da primeira metade do século III, pois oferece um ritual completo da iniciação cristã. Pela importância desta obra para a compreensão da iniciação cristã nesse período e sua referência na reforma do RICA vamos aqui a ela nos ater mais detalhadamente, sem deixar de fazer referência a outras, identificando a estrutura do catecumenato, composta por cinco etapas:

A apresentação do candidato e a sua admissão após um exame severo

Nem a Tradição apostólica nem Tertuliano45 falam de um rito de admissão ao catecumenato. Aqueles que se apresentam são levados aos “doutores” e se procede a um exame de seu estado de vida, de sua profissão, porque deverão renunciar a tudo o que for contrário à condição de discípulos de Cristo.46 Inicialmente, procede-se a um minucioso exame do candidato, sempre recomendado por um responsável.47 Trata-se de verificar os motivos da conversão, isto é, a sinceridade do candidato, juntamente com os dados relativos ao seu estado familiar (solteiro ou casado), social (livre ou escravo) e profissional (ofício ou trabalho).48 Certos estados e profissões não são aceitos, caso não haja uma mudança. A entrada no catecumenato supõe a evangelização e a conversão primeira, a apresentação pelos padrinhos e o exame de admissão, com o qual, verificada a sinceridade de atitudes, motivos e atividades, o candidato é incluído no grupo dos catecúmenos.

O período do catecumenato

Os candidatos admitidos denominavam-se “catecúmenos” (Katechumenoi) ou “ouvintes” (audientes). Observa-se que, desde o começo, a formação não era puramente intelectual: depois da admissão começa um longo período de formação cristã no qual havia ensino e exigências: arrependimento, fé na Igreja e vida transformada.49 Este período inclui a catequese, a oração e a imposição da mão pelo catequista, que pode ser um clérigo ou um leigo.50 O próprio termo “ouvintes” mostra a importância da catequese durante esta preparação para a iniciação.51 Logo no início, fazia-se uma catequese introdutória, da qual temos um exemplo magnífico na obra de Santo Agostinho, De catechizandis rudibus,52 em que “pela exposição da história salvífica até ao Juízo final deve ser conduzido ao amor, pela fé e pela esperança”.53 É uma exposição feita de tal forma que “aquele que te ouve, ouvindo, creia e, crendo, espere e, esperando, ame”.54 Aos catecúmenos se dava uma instrução especial, separada da comunidade, cujo tempo de instrução e de exercícios, segundo a Tradição apostólica, estendia-se oficialmente por três anos.55 O que conta, porém, não é o tempo, mas a sua conduta para a avaliação feita pela comunidade.56 Caso mostre muito zelo, no entanto, não se levará em conta o tempo, mas o julgamento será feito a partir de sua conduta. Os audientes participam das assembléias dominicais separados dos fiéis, e somente permanecem para a primeira parte da missa, pois ainda não se associam à oração dos batizados.57 Estes não cessam de recomendá-los ao Senhor em sua prece. Tal situação perdurará mesmo quando já tiverem entrado na etapa seguinte de sua preparação até o dia da sua iniciação. Na assembléia dominical, portanto, os catecúmenos estavam presentes só na primeira parte da missa, em cujo final eram despedidos.58 O tempo do catecumenato ou catequese desenvolve a dimensão doutrinal (formação-ilustração), a moral (mudança de costumes-conversão) e a ritual (introdução à oração e os símbolos), e vem a ser como o grande caminho pelo deserto até chegar à terra prometida pelo batismo cristão. A literatura patrística desta época enfatiza a qualidade moral dos candidatos. Os “responsáveis” faziam um acompanhamento do ensinamento dos catequistas e, ao final do catecumenato, testemunhavam diante da Igreja sobre a dignidade dos candidatos. Os catequistas avaliavam o papel dos padrinhos, que guiavam os catecúmenos pelo caminho da conduta cristã. Os catequistas, ainda, ensinavam os catecúmenos a orar, liam e explicavam as Escrituras e os benziam ao final de cada sessão. Baseando-nos nisto, não deveríamos hesitar em considerar as sessões catequéticas durante a época patrística como ritos litúrgicos. Na realidade, se baseavam no formato da liturgia da Palavra, composta pela leitura das Escrituras, ensinamento, oração e bênção.

A preparação próxima para o Batismo

a) Os “eleitos” A outra forma de catequese estava reservada aos eleitos, que estavam próximos de receber os sacramentos de iniciação. Esta etapa do catecumenato se iniciava com uma compreensão mais sistemática das verdades reveladas. A Igreja, durante a época patrística, lhes proporcionava ritos litúrgicos, especialmente à medida que se aproximava o batismo. 

O momento da admissão ao batismo foi importante desde os começos da iniciação. Exigia-se o arrependimento dos pecados, a aceitação da fé da Igreja e a decisão de transformar a própria vida. Era um novo exame sobre a conduta dos catecúmenos durante o tempo de instrução, no qual intervinham de novo os padrinhos 

A preparação próxima tinha início no começo da Quaresma. Durante a quaresma, que era o grande retiro dos catecúmenos, acompanhados pelos jejuns e orações dos fiéis, realizava-se a preparação próxima para o batismo, na noite da Ressurreição,61 em que “toda a comunidade acompanhava os futuros iniciados, renovando seu próprio caminho na direção da regeneração até o momento da eucaristia solene da noite da Ressurreição”.62 Hipólito fala de uma preparação mais intensa nas proximidades desta solenidade.63 Quem assume esse compromisso ganha outro nome: no Oriente, chamam-se photizómenoi (os “iluminados), isto é, aqueles que serão iluminados pela profunda instrução nos mistérios da fé. No Ocidente chamam-se competentes, isto é, aqueles que se empenham pela recepção imediata do Batismo. E, em Roma, chama-se electi, os “eleitos”, isto é, aqueles que foram selecionados e aceitos através do exame do bispo.

b) A inscrição do nome

O catecúmeno, segundo a Tradição apostólica, 65 é apresentado ao bispo por seu padrinho que dá um depoimento a respeito de suas disposições. Da parte do catecúmeno, trata-se de um ato de candidatura e de eleição pela Igreja que o escolhe em nome do Senhor. Este procedimento adquire mais importância, a partir do momento que aumenta o número dos “ouvintes” que não se apressam na direção da fonte da graça. Tal etapa constitui então, mais do que a entrada no catecumenato, o momento quando são determinados os verdadeiros discípulos de Cristo.66 Os exercícios, portanto, concentravam-se agora de tal modo que as últimas semanas de preparação coincidiam com o precioso e oportuno tempo dos cristãos, isto é, o tempo da santa “Quarentena” ou Quaresma. A liturgia quaresmal, ainda hoje, deixa transpirar belas alusões a esse costume. Mesmo que a duração da quaresma variasse conforme as épocas e as Igrejas, via de regra, é no começo do jejum que se dá o acesso a esta intensa preparação.

O tempo da quaresma, desde o seu aparecimento, sempre foi considerado um momento em que se dispensam, de forma mais abundantes, os tesouros da Palavra de Deus. As comunidades são convidadas a reuniões freqüentes, durante as quais os bispos (a não ser que se confiem esta tarefa a sacerdotes escolhidos devida à sua competência) comentam a Sagrada Escritura. Os “eleitos” tomam parte, juntamente com os fiéis, nestas assembléias, que, em determinadas Igrejas, são iniciadas ou concluídas por ritos catecumenais.68 Os “eleitos” são também convocados para catequeses que lhe são próprias, nas quais são expostos os diversos artigos do “Credo”. Terminado este ensinamento e, em dias que variam segundo os costumes locais, dá-se a traditio symboli: o símbolo da fé lhes é “entregue”.

Eles deverão aprendê-lo de cor e serem capazes, no fim da Quaresma, de dizê- lo publicamente, exprimindo desta forma sua adesão pessoal à fé que lhes foi transmitida: “devolvem” o Credo. É a redditio symboli. Diz Santo Agostinho: 

Dentro de oito dias restituireis o que recebestes hoje. Os vossos pais, que vos acolhem hão de ensinar-vos também, para que estejais preparados, e o modo como haveis de permanecer em vigília até o canto do galo, para as orações que aqui celebrais. Começamos a apresentar-vos aqui o Símbolo, para que o aprendais com cuidado; mas ninguém tenha medo; o medo não deve impedir ninguém de o recitar. Tende confiança: nós somos vossos pais, não temos a palmatória nem as varas do mestre da escola. Se alguém se enganar numa palavra, não erre na fé 

As catequeses não são mero ensino intelectual e, menos ainda, exercício escolar. Integram-se na celebração. Geralmente, o comentário do Credo é seguido da explicação do Pater, que será também objeto de uma traditio e de uma redditio.70 A catequese era acompanhada por uma série de exorcismos, com imposição das mãos. Essas cerimônias eram designadas pelo nome de escrutínios, para mostrar que os candidatos recebiam a ação transformadora de Deus em sua luta contra o mal. Em certo sentido, tudo isto fazia parte do processo chamado catequese, “que não se dava como um simples ensinamento em forma de aula, mas que se fazia conjuntamente com os ritos litúrgicos”.

 A iniciação sacramental

O ponto culminante do período de instrução catequética e formação espiritual se dava na celebração pascal do batismo, da confirmação e da sagrada Eucaristia. O Cristo Ressuscitado é o centro da vida de fé, do ensinamento, da liturgia e da vida comunitária, que faz a Igreja ser uma comunidade de fé, de culto e de caridade. As festas pascais são consideradas o tempo mais oportuno para a celebração da iniciação. Tertuliano afirma expressamente: “o dia mais solene para o batismo é por excelência o dia da Páscoa, em que é consumada a paixão do Senhor, na qual somos batizados”,72 de modo que liturgia e catequese se coordenavam, e o batismo se apresentava como participação na Ressurreição de Cristo. Esta iniciação sacramental consta de diversos momentos:73 a) três dias antes do batismo, na quinta-feira anterior à Páscoa, os eleitos tomam um banho; b) na sexta-feira começam o jejum; c) no sábado se reúnem com o Bispo, que lhes impõe as mãos exorcizando-os, sopra-lhes no rosto e marca-os na fronte, nos ouvidos e nas narinas e, d) durante a noite inteira faz-se vigília, rezando e ouvindo a Palavra de Deus. No decorrer da vigília pascal celebra-se o rito sacramental propriamente dito:74 a) Enquanto os batizandos se preparam para o rito, despojando-se dos seus trajes, o bispo consagra os óleos (o do exorcismo e o da ação de graças, que correspondem aos nossos óleos dos catecúmenos e o santo crisma). b) Cada candidato pronuncia a renúncia a Satanás e, em seguida, o presbítero o unge com óleo do exorcismo. c) Segue-se o Batismo, com três imersões, correspondentes à profissão de fé dialogada nas três pessoas da Trindade. d) Depois do batismo o neófito é ungido com o óleo de ação de graças. e) Em seguida, os recém-batizados, tendo vestido as suas vestes brancas, se apresentam à comunidade reunida. Neste ponto o bispo cumpre alguns ritos que correspondem ao sacramento da confirmação: imposição das mãos, unção com o óleo de ação de graças, sinal da cruz na fronte, e o beijo de paz ao neófito. f) Após, os neófitos rezam com todo o povo e participam da Eucaristia. 

Esta primeira participação eucarística é marcada por um rito especial: além do pão e do vinho, os neófitos recebem uma mistura de leite e mel. Como recém-nascidos, abandonaram o Egito da escravidão para habitar “numa terra onde corre leite e mel”.75 A iniciação cristã, na teologia dos Padres, visa a inserção do candidato adulto na comunidade eclesial. O candidato é acolhido como novo membro com a recepção dos três sacramentos da iniciação cristã: batismo, confirmação e eucaristia. Todo aquele que tenha recebido a fé e a tenha confirmado pode aproximar-se do banquete eucarístico. Os processos posteriores de preparação para a confirmação e a recepção da eucaristia, como fazemos hoje, não são concebíveis pela teologia dos Padres. 

A catequese mistagógica 

Durante a semana da páscoa, os neófitos, cheios de alegria e ansiedade, iam diariamente à Igreja para receber as catequeses mistagógicas76 ou sacramentais, para que os recém-iniciados aprofundassem a consciência dos símbolos experimentados. Em algumas igrejas eram instruídos sobre certas exigências morais. Durante esta semana, os neófitos usavam veste branca.77 Os Padres, quando organizavam suas catequeses mistagógicas, levavam em conta não só a instrução, mas o rito, pois sua vivência e compreensão eram ministradas depois da recepção dos sacramentos.

Mesmo que os candidatos ignorassem ainda o total significado e detalhes dos ritos litúrgicos, se consideravam preparados espiritual e moralmente. Durante os oito dias seguintes à celebração, se reuniam ao redor do bispo para revisar a experiência da noite de Páscoa e discernir sobre novos pensamentos doutrinais e espirituais 


Era preciso ser batizado para ter acesso ao mistério do batismo e dos demais sacramentos, pois o mistério tem que ser experimentado antes de poder ser interpretado. E isso não tanto por respeito à lei do arcano, que proibia comunicar os divinos mistérios aos pagãos, mas, sobretudo por causa da convicção de que os sacramentos eram acontecimentos, não noções. Tinha-se por princípio que “a explicação prévia iria tirar do batizando a receptividade para o evento e, conseqüentemente, a experiência do mistério”.79 Era preciso vivê-los primeiro; a explicação vinha depois 80. É o que nos confirma São Cirilo de Jerusalém: 

Desde há muito tempo desejava falar-vos, filhos legítimos e muitos amados da Igreja, sobre estes espirituais e celestes mistérios. Mas como sei bem que a vista é mais fiel que o ouvido, esperei a ocasião presente, para encontrar-vos, depois desta grande noite, mais preparados para compreender o que se vos fala e levar-vos pelas mãos ao prado luminoso e fragrante deste paraíso.

É preciso levar em conta que, para os Padres, os sacramentos não se explicam antes de serem recebidos. Os mistérios primeiro se vivem e somente depois se entendem. Tal concepção é de grande importância para a atividade pastoral, pois permite dar continuidade ao primeiro anúncio e ao catecumenato.82 Certamente vislumbra-se aqui um pensamento comum aos Padres da Igreja, segundo o qual o rito tem um valor propedêutico, isto é, prepara o fiel para um ensinamento mais completo. Não se trata, pois, exclusivamente, de ensinar e de “saber” coisas sobre a fé, mas transmitir o conteúdo da fé da Igreja e, desta maneira, ajudar a mudar de vida, de acordo com a fé, e de conduzir as pessoas às portas do encontro com Jesus Cristo, que vem ao encontro delas pelos sacramentos. À explicação dos mistérios dá-se o nome de catequese mistagógica, pois mistagogia quer dizer, exatamente, “iniciação aos mistérios” ou sacramentos recémcelebrados. A catequese mistagógica83 da semana pascal introduz os neófitos na seqüência do rito ao mistério, à compreensão do que experimentaram na Vigília Pascal. Hipólito observa que, se algo deve ser lembrado aos que tiverem recebido o batismo, o bispo, o fará em segredo, para que os não-fiéis não sejam informados, a não ser depois que o houverem também recebido.84 Dentre as catequeses mistagógicas deste período, tomamos como referência as de Cirilo de Jerusalém. 85 Nas suas cinco últimas catequeses, oferece uma explicação dos ritos do batismo, da confirmação e da eucaristia. Portanto, nesta época, adquirem grande importância as catequeses patrísticas86 sobre a iniciação cristã. Os neófitos mantinham-se de veste branca e completavam a sua instrução sacramental pelas catequeses mistagógicas até o segundo domingo da Páscoa “in albis deponendis” (quando as vestes brancas são depostas). Era assim que terminava a catequese de iniciação na comunidade cristã. Enquanto não acontece todo este processo, não se pode dizer que um cristão tenha completado a iniciação cristã. 




15/07/2015

FÓRMULAS BATISMAIS: BATISMOS NA ÁGUA E BATISMOS NO SANGUE NA IGREJA PRIMITIVA

FÓRMULAS BATISMAIS: BATISMOS NA ÁGUA E BATISMOS NO SANGUE NA IGREJA PRIMITIVA

(Pe. Ignácio, dos Padres Escolápios)

Os primeiros batismos foram feitos no dia de Pentecostes. Pedro declara aos ouvintes: "Convertei-vos: receba cada um de vós o batismo no nome de Jesus Cristo para o perdão dos pecados; e recebereis o Dom do Espírito Santo"(At 2, 38) E diz o texto que os que acolheram sua palavra receberam o batismo. E houve cerca de três mil pessoas que, nesse dia, se juntaram a eles(2,41). Foram realmente os primeiros ou aconteceram outros batismos antes desse dia? Lemos em Jo 1, 33 que Jesus batizava no Espírito Santo. Uma antiga tradição conservada por Nicéforos (sec XIII) o escritor grego dos 23 volumes da História Eclesiástica no seu volume II avaliada por Clemente de Alexandria (150-215)na sua Stromata (=miscelânea), afirma que Jesus batizou Pedro e que este batizou André. Tiago e João e estes últimos os outros discípulos. De fato S. Agostinho, afirmando que o batismo é a porta dos outros sacramentos tem como certo que, antes de receberem a Eucaristia na última ceia, os apóstolos estavam batizados por Jesus. Seria um contra-senso que Jesus batizasse na Judéia (Jo 3,22) e não o fizesse a seus discípulos mais diretos como eram os apóstolos. João disse que eram propriamente os discípulos de Jesus que batizavam.(4,2). Uma coisa deve ficar clara: o batismo de João era diferente do batismo de Jesus e seus discípulos, porque o daquele era em água e o destes em fogo e no Espírito Santo. Tal aconteceu com Cornélio e seus familiares, que ,ouvindo as palavras de Pedro, receberam o Espírito Santo assim como os judeus presentes já batizados o tinham recebido; por isso Pedro mandou batizar os gentios, familiares de Cornélio, em nome de Jesus Cristo (At 10, 48). Do mesmo modo Paulo em Éfeso batizou em nome do Senhor Jesus alguns discípulos de João, o Batista, por este batizados e que nem tinham ouvido falar do Espírito Santo (At 19, 5).

Que deduzimos de tudo isso? A primeira conclusão é que o batismo verdadeiro é o de Jesus, feito por ele ou em seu nome, como conseqüência da fé nele depositada. A Segunda é que o batismo de Jesus não foi iniciado no dia de Pentecostes mas tinha sido oferecido por ele e seus discípulos no início de sua vida chamada pública, iniciada após as tentações do deserto que se seguiram a seu batismo por João. A terceira que a fórmula do batismo nos primeiros tempos podia variar um pouco desde o nome de Jesus até a fórmula trinitária adotada hoje em dia. E da qual vamos falar.

FÓRMULA TRINITÁRIA: É a fórmula dada por Cristo a seus discípulos segundo Mateus:Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo (28,19). No ano de 150 aproximadamente S. Justino, mártir afirma em sua apologia que os candidatos do batismo recebem a lavagem da água no nome do Pai e Senhor do Universo e no de nosso Salvador Jesus Cristo e no do Espírito Santo. A Epístula Apostolorum (carta dos apóstolos) do mesmo tempo aumenta o número de artigos de fé: Seu credo fala do Pai moderador do mundo inteiro, de Jesus Cristo nosso Salvador, do Espírito Santo Paráclito, e da santa Igreja e da remissão dos pecados. Tertuliano( 155-220)afirma: A lei do batismo tem sido imposta e a forma prescrita: Ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. S. Cipriano, mártir e bispo de Cartago(200-258) não aceita a fórmula usada só em nome de Jesus Cristo, afirmando que a nomeação das três pessoas foi um mandato do Senhor. S. Ambrósio(339-397) declara que se uma pessoa não for batizada no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo não pode obter a remissão dos pecados. O problema complicou-se com as heresias de Montano(172),de Sabélio(220), de Ário(250-336)e outros hereges,como os monarquianos(260). Os montanistas, grupo carismático do século II que faziam questão de seu Dom de línguas, batizavam em nome do Pai e do Filho e de Montano e Priscila, pois estes substituíam o Espírito Santo. Os sabelianos, como os monarquianos, só admitiam uma pessoa, monad, em Deus. Já os arianos, não acreditavam na divindade de Cristo e alguns, como os anomeos, tinham como fórmula: "Em nome do Deus incriado, do criado Filho e do Espírito Santificador, procriado pelo criado Filho". Outros grupos arianos batizavam na morte de Cristo. Foi devido a isto que a fórmula trinitária era exigida no batismo como profissão de fé cristã, e não mais utilizada a fórmula cristológica. Porque em definitivo a fé é a base do batismo e da incorporação à vida divina.

BATISMO PRIMITIVO: PRIMEIROS ESCRITOS

A DIDAQUE: A mais antiga descrição do batismo, fora das escrituras, é da Didaque (doutrina). O título completo deste livro é Doutrina do Senhor através dos doze apóstolos aos gentios. É mais conhecido com o título breve de Doutrina dos doze apóstolos. É um catecismo e ao mesmo tempo um breve livro de Direito Canônico. Como ainda não tinha sido encerrado o ciclo da revelação, foi considerado como inspirado e incluído dentro do cânon das Escrituras. É um documento antigo porque fala de missionários ambulantes que correspondem, segundo Eusébio, aos evangelistas citados por Paulo em Ef 4, 11 como carismáticos. Fala também de profetas, que Paulo cita também como o segundo degrau dos carismas em I Co 12, 28. Aos profetas incumbia a instrução, a exortação e a consolação dos irmãos. A data da composição seria entre os anos 70 e 90. O BATISMO na Didaque é tratado com certa profusão. Os batizados devem antes passar pelo catecumenato. Tenhamos em conta que nos primeiros tempos a maioria dos batizados era de gente adulta. Por isso a Didaque manda jejuar tanto o batizando como o ministro e alguns outros se possível. O batizando deve jejuar um ou dos dias. Sobre o batizado em especial, além de ter uma instrução suficiente, que o texto compendia nos dois caminhos (o cristianismo primitivo era chamado de caminho)e preparado de imediato com o jejum, era batizado sob a fórmula em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Esta é também a fórmula nos dias de hoje. Como matéria do batismo a Didaque diz o seguinte: se não tens água viva(= água de manancial ou de rio), batiza com outra água; se não podes fazê-lo com água viva, batiza com outra água; se não podes fazê-lo com água fria, faze-o com água quente. Se não tiveres nem uma nem outra, derrama água na cabeça três vezes no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. É o batismo de infusão hoje o mais comum na Igreja católica romana.

S. CLEMENTE ROMANO: Foi o terceiro sucessor de Pedro após Lino e Anacleto, como Bispo de Roma ou Papa, de 92 a 101. Parece que conheceu pessoalmente Pedro. Escreve uma carta aos de Corinto. O primeiro documento da literatura cristã do qual historicamente sabemos seu nome e a época do autor. O motivo foi que as facções, as quais Paulo condena em sua carta (I Co 1,10+ ), estavam de novo atuando. Alguns fiéis tinham se sublevado contra os presbíteros da Igreja, aos quais só uma minoria permanecia fiel. Clemente quer evitar as diferenças e o escândalo dado aos pagãos. Do batismo diz: Os Apóstolos ...assegurados pela ressurreição de Jesus Cristo e confirmados na fé pela palavra de Deus, saíram cheios da certeza que lhes infundia o Espírito Santo a dar a alegre notícia de que o reino de Deus estava a chegar e assim proclamavam a boa nova por lugares e cidades e batizavam aos que obedeciam o desígnio de Deus e estabeleciam aos que eram as primícias deles, após experimentá-los pelo espírito, como bispos e ministros (epíscopos e diákonos em gergo) dos quais seriam evangelizados os próximos crentes. O que nos interessa é que o batismo era tão importante como a evangelização, segundo esta breve história da igreja apostólica

O BATISMO NOS PADRES APOSTÓLICOS

S. IGNÁCIO DE ANTIOQUIA: Enquanto era levado para o martírio em Roma, escreve seis cartas a diversas igrejas do Oriente e uma à igreja de Roma. Ele é o primeiro a chamar a Eucaristia de Sacrifício(Thysia) e a Igreja do lugar do sacrifício, sendo o primeiro a usar o termo de Igreja católica para significar o conjunto dos fiéis(Esmirna). Foi condenado às feras no reinado de Trajano(98-117). A heresia dos docetas, que não admitiam uma natureza humana em Cristo foi condenada de modo explícito por Ignácio. Na carta aos de Esmirna podemos ler: "dizem alguns, gente sem Deus, quero dizer sem fé, que (Cristo) só sofreu em aparência...Eles, sim, que são pura aparência! Fujam desses malvados que levam fruto mortífero. Afastem-se também eles da Eucaristia e da oração porque não confessam que na Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, a mesma que padeceu por nossos pecados, a mesma que ,por sua bondade, o Pai ressuscitou.....Ponde pois todo empenho em usar uma só Eucaristia; porque uma só é a carne de nosso Senhor Jesus Cristo e um só cálice para unir-nos com seu sangue; um só altar, assim como não há mais do que um só bispo, juntamente com o presbitério e os "diákonos", os que são escravos (syndouloi) junto comigo".

Vemos nestas palavras que a fé na verdadeira doutrina em Jesus, "de Maria e de Deus"(aos efésios)é fundamental para que o sofrimento não seja considerado como algo alheio à vida de um cristão já que Cristo padeceu realmente. A outra doutrina válida desde os tempos apostólicos, já que Ignácio conheceu os apóstolos, é a da Eucaristia tal e qual as duas igrejas de Roma e de Constantinopla proclamam. A terceira certidão é sobre a hierarquia eclesiástica, já nesse tempo tão antigo, dividida em bispo, presbíteros e diáconos. Ignácio a si mesmo se denomina diácono, servidor ou escravo de sua igreja.

Mas vejamos mais sobre este último ponto. Na carta a Esmirna escreve: "Sem contar com o bispo não é lícito nem o Batismo, nem celebrar a Eucaristia, senão aquilo que ele aprovar isso será também o agradável a Deus, com o fim de que o que fizerdes seja seguro e válido. Que ninguém sem contar com o bispo, faça coisa alguma que pertença à Igreja". Ignácio também deseja que convenha que os que se casam "celebrem seu enlace com conhecimento do bispo, para que o casamento seja conforme ao Senhor e não só por desejo".

Uma última questão é a idéia que Ignácio tem sobre a primazia da Igreja de Roma. Da carta aos romanos podemos oferecer estas passagens: Ela é a "que preside na capital do território dos romanos" mas também a "que preside a caridade". Da qual diz Ignácio que a ela "não dá mandatos como Pedro e Paulo. Eles foram apóstolos ; eu não sou mais que um condenado à morte". Destas palavras deduzimos uma coisa clara: Pedro e Paulo foram bispos de Roma, nela estiveram e governaram como tais por serem apóstolos. E uma coisa não tão clara para uns e sim evidente para outros: A igreja de Roma tem uma preeminência, ou preside. A questão é sobre que. Na tradução temos usado duas palavras de difícil interpretação: Topos que em grego clássico significa lugar e Ágape que é invenção do NT e que é traduzido por amor ou caridade. Que significa presidir no lugar do território dos romanos? A opção dos tradutores é usar capital. A outra interpretação é ágape. É que ela em Ignácio está no lugar de igreja. Um exemplo: "Os saúda a caridade dos irmãos em Troas". Por isso há autores que traduzem: "Preside a vida de amor, própria dos cristãos" O significado é que essa ágape é a vida cristã que se manifesta na assembléia, na celebração da Eucaristia, chamada de ágape e portanto representa a verdadeira Igreja. A passagem é discutível; mas ao mesmo tempo vemos que há uma autoridade na Igreja de Roma que Ignácio não prevê nas outras igrejas às quais escreve.

O BATISMO DE SANGUE

JESUS: Falando a os dois discípulos filhos de Zebedeu lhes perguntou: podeis ser batizados com o batismo com que eu sou batizado? (Mc 10,38) Esse batismo que Jesus dizia que o angustiava até que o mesmo se realizasse(Lc12,50). Foi o batismo a imersão no seu próprio sangue que se verificou em Getsêmani(Lc22,44) para mais tarde se completar com os açoites e a cruz.como primeiro mártir.Ele mereceu o perdão dos pecados, logicamente não dos próprios mas do gênero humano em general. Por isso todo martírio merece o perdão dos pecados. É o ato de amor e fé mais sublime que uma criatura pode dar e conseqüentemente é o ato de maior amor que recebe de seu deus e Senhor.O martírio o torna filho, como faz o batismo , renascendo para uma vida nova.

PEDRO E PAULO: Ambos passaram pelo martírio. Não temos no primeiro século testemunho direto dos seus martírios, mas tanto Clemente romano(cerca 100) quanto Ignácio (+107) pressupõem o mesmo. Clemente, falando de Pedro em sua famosa carta aos corintianos, escreve: "Pedro, que por injusta emulação teve que suportar muitos trabalhos....dado testemunho, marchou ao lugar que lhe era devido". O testemunho é o martírio. E de Paulo escreve "que alcançou a nobre fama de sua fé". A tradição confirma as citações assegurando que no ano 64, após o inc6endio de Roma, entre os cristãos crucificados por ordem de Nero estava Pedro que quis sê-lo de cabeça para baixo, entanto Paulo foi degolado pela espada por ser cidadão romano e portanto excluído do suplício da cruz. Ambos foram mortos fora dos muros da cidade. Pedro na colina vaticana e Paulo na via Ostiense. Os lugares de martírio foram ocupados por sendas basílicas. Na cripta de S. Pedro encontrou-se, no tempo de Pio XII, uma urna datada d século 1o pelas moedas e com a inscrição em grego Petrós eini(Pedro aqui), com ossos de um ancião e um resto de púrpura de sua veste cuja data era do século primeiro. A basílica de Paulo é uma das mais formosas por seus mosaicos ao estilo da época dos romanos.

MARTÍRIO DE S. IGNÁCIO: O bispo antioqueno foi devorado pelos leões no anfiteatro Flávio, hoje chamado de Colisseum, situado no início da Via Sacra, caminho triunfal das legiões vitoriosas dede o arco de Tito ente os muitos templos que a ladeavam finalizada pela Cúria e pelo templo de Saturno, de um e outro lado do Rostrum ou Rostra, a tribuna dos oradores. Trajano conseguiu acabar com a guerra dos dácios na atual Iugoslávia. O fim da guerra foi celebrado com pompa inaudita até então. Trajano inaugurou um fórum ou praça com uma coluna em que estavam seus feitos, esculpidos numa espiral desde a base até o alto da mesma.Terminada a guerra em 106 as festas duraram 123 dias. Dez mil gladiadores pereceram nesses dias para diversão do povo romano e 12 mil feras foram mortas nas famosas venationes(caças). O 18 de dezembro de 107 foram lançados às mesmas os dois companheiros de Ignácio, Zósimo e Rufo. Dois dias depois chegou a vez de Ignáçio. No dia 20 de dezembro ele alcançou a graça que tanto desejava: dar a sua vida em testemunho por Cristo. Eram os dias em que os romanos celebravam as Saturnália. Saturno era o deus romano da sementeira semelhante ao Cronos grego. ou deus da agricultura. O seu nome deu origem ao Saturday inglês. O seu templo ao final da via sacra servia como banco do erário público. As festas em sua honra, chamadas de Saturnália começavam em dezembro 17 e demoravam uma semana. Era o carnaval romano. Todo trabalho era suspenso. Os escravos tinham uma liberdade temporal para fazer esses dias o que desejassem. Restrições morais eram levantadas e presentes eram trocados de modo geral. Foi no dia 20 que Ignácio, junto com outros cristãos e alguns prisioneiros dácios foi devorado pelos leões. Só ficaram as partes mais duras de seu corpo, como declaram as atas de seu martírio, as quais foram levadas a Antioquia e depositadas numa cápsula que em tempos de Teodósio, o jovem, foram colocadas na basílica que leva seu nome.

BATISMO DE SANGUE: S. POLICARPO (+155)

VIDA: Ireneu (178) afirma que Policarpo teve trato com muitos que haviam visto o Senhor e ainda que foi estabelecido pelos mesmos apóstolos, na Ásia, como bispo da igreja de Esmirna. Segundo Tertuliano(155-220), Policarpo era bispo de Esmirna, sagrado bispo por João o autor do Apocalipse no ano 96, escrito no final do império de Domiciano. Segundo a tradição da Igreja de Esmirna- escreve o apologista- foi João quem estabeleceu Policarpo bispo da mesma do modo que, na Igreja de Roma, Clemente foi ordenado bispo por Pedro. Esse João suposto autor do Apocalipse escreve ao anjo da igreja, o bispo ou a mesma igreja. Eis o que diz: "Estas coisas diz o Primeiro e o Último, que esteve morto e ressuscitou: conheço tua tribulação e tua pobreza; mas tu és rico e conheço também a blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são, sendo antes sinagoga de Satanás. Não temas o que terás que sofrer. Olha que o diabo vai lançar alguns de vós no xadrez para que sejais tentados e tereis tribulação durante dez dias. Sê fiel até à morte e te darei a coroa da vida (Ap 2,8.10)..

Por esta igreja de Esmirna passa Ignácio de Antioquia no caminho para Roma e seu martírio. A ela escreve com carinho e recorda o bispo como digno de Deus, e dá graças a Deus por ter visto o rosto de Policarpo do qual oxalá me fosse dado gozar sempre em Deus, a quem chama felicíssimo.

Entre os ouvintes de Policarpo há um jovem que grava em sua memória palavras e gestos que recordará em suas cartas, especialmente na que dirige a Florino, o presbítero romano, grande amigo seu. Sobre a heresia gnóstica,  Ireneu adverte a seu amigo, dizendo: "Estas doutrinas não as transmitiram os anciãos anteriores a nós que conviveram com os apóstolos. Porque eu te vi quando ainda era um menino, na Ásia interior junto a Policarpo, desempenhando brilhante papel na corte imperial, e tratando ao mesmo tempo de ganhar também a estima de Policarpo. Do acontecido então me lembro melhor do que me lembro de coisas de ontem...de sorte que posso dizer até o lugar em que o bem-aventurado Policarpo se assentava para dirigir sua palavra, como entrava em matéria e como terminava suas instruções, seu gênero de vida, a forma de seu corpo, as homilias que dirigia a multidão, como contava seu trato com João e com os outros que haviam visto o Senhor e como recordava as palavras dele de que era o que ele tinha ouvido deles sobre o Senhor, já sobre seus milagres, já sobre sua doutrina. Tudo isto como quem o tinha recebido dos quais foram testemunhas da vida do Verbo, Policarpo o relatava de acordo com as Escrituras....todas estas coisas arquivando-as em meu coração, as sigo ruminando pela graça de Deus".

Segundo Ireneu, Policarpo, como discípulo direto dos Apóstolos, transmitia o mesmo que a Igreja transmite, que é o único verdadeiro. Testemunha da verdade muito mais digno de fé e mais firme que Valentino e Marcião (gnósticos) e os outros extraviados em suas opiniões. Que forma mais clara de dizer que a tradição vale muito mais do que a erudição e a ilustração de mentes esclarecidas. Por isso Policarpo opôs a pura tradição evangélica, proclamando que não existe outra verdade senão aquela que os Apóstolos entregaram à Igreja e esta guarda fielmente e transmite em seu ensinamento. Parece uma apostilha de Paulo: "Ao homem amigo de sua opinião, afasta-o de teu trato; depois de uma ou duas admoestações, sabendo que esse  tal anda extraviado e se encontra em pecado, condenando-se por sua própria sentença"(Tit 3,10-11).

S. POLICARPO (II) VIDA

Da sua vida temos dois admiráveis exemplos narrados pelos hagiógrafos. O primeiro é sua viagem a Roma para resolver o espinhoso assunto da Páscoa. O segundo é o seu encontro com Marcion em Roma.

Asiáticos e ocidentais diferiam na data da celebração da Páscoa, recordação da morte e ressurreição do Senhor Jesus. Os orientais fixaram o dia como sendo o 14 do mês judaico de Nissan. Os ocidentais variavam o dia segundo os anos, mas sempre coincidindo com o Domingo. É a controvérsia chamada dos quatordecimanos. No ano 170 o Papa Victor quer forçar as igrejas da Ásia a aceitar o uso romano ameaçando-as com a separação da comunhão católica. Ireneu intervém para relatar ao papa Victor, em carta conservada por Eusébio, o historiador, a entrevista entre Policarpo e Aniceto. Ireneu cita os papas Aniceto, Pio, Higinio , Telesforo e Sixto. e diz textualmente: "Nem eles guardaram esse uso nem o permitiram aos seus, senão que os mesmos presbíteros predecessores teus, que não o guardavam, enviaram a Eucaristia aos procedentes das igrejas que o guardavam. E assim estando o bem-aventurado Policarpo em Roma, sob o pontificado de Aniceto(154), e tendo alguns pontos miúdos de diferença entre si, imediatamente ficaram em paz, não fazendo questão de honra esse capítulo da observância pascal, porque Aniceto não pode persuadir Policarpo a que não observasse o 14 de Nissan , já que este alegava ter sempre observado a Páscoa nesse dia juntamente com João, discípulo do Senhor, e os outros apóstolos com os quais tinha conversado; nem por outra parte Policarpo conseguiu persuadir Aniceto a observá-lo, pois este dizia dever seu manter o costume recebido dos presbíteros anteriores a ele. Estando assim as coisas, mantiveram não obstante a comunhão entre si e na reunião litúrgica Aniceto cedeu seu lugar a Policarpo na consagração da Eucaristia, evidentemente por deferência e separaram-se em paz, mantendo a concórdia entre os observantes e os não observantes".(Os observantes para Eusébio eram os do 14 de Nissan).

O segundo episódio é sobre os judeo-gnósticos e suas especulações que se difundiam nas igrejas orientais da Ásia Menor. A Segunda epístola de S. João está precisamente dirigida a combater essas doutrinas, iniciadas por Cerinto e propagadas com a ajuda de não escasso dinheiro por Marcion. Encontraram-se ambos Marcion e Policarpo em Roma e Marcion pede a Policarpo que o reconheça como cristão. Policarpo lhe responde: "Sim te conheço, te conheço que és o primogênito de Satanás".

CERINTO: (c 60-80) Era um judeu educado no Egito, contra cujas doutrinas escreveu S.João o 4o evangelho e suas epístolas, segundo S. Jerônimo. Ensinava que o mundo não tinha sido feito pelo Deus Supremo, sem contato com o mesmo, mas por um poder inferior um demiurgo(demos=povo e ergo=obra) que era ignorado pela tradição judaica e que deu a lei a Moisés. Jesus era filho de José e Maria e se distinguiu entre todos os homens pela sabedoria e prudência. No momento do batismo o poder supremo fez descer sobre ele o Cristo um outro demiurgo ou mediador entre Deus e o homem em forma de pomba o qual fez milagres e revelou aos homens o Deus desconhecido. Cristo voou ao céu no momento da paixão. Jesus padeceu e ressuscitou. Contra ele foi escrito o último evangelho, o de João, que afirma claramente não unicamente que o verbo estava em Deus, mas que o Verbo era Deus e que se encarnou e habitou entre nós. Policarpo, discípulo direto de João escreve aos de Filipos: "Quem não confessar que Jesus Cristo (não faz distinção ente Jesus e o Cristo) tem vindo em carne é um anti-Cristo (nega a verdade sobre Cristo) E quem não confessar o testemunho da cruz procede do diabo. E quem alterar as sentenças do Senhor em interesse de suas próprias ambições é o primogênito de Satanás.

De João tomou Policarpo a convicção de que não podemos modificar o sentido da palavra do Senhor, "palavra que nos foi dada desde o início", de modo a pregar uma doutrina falsa. As igrejas da Ásia transmitiam o relato, e Policarpo gostava de repetir o mesmo dizendo como João saiu precipitadamente dos banhos de Éfeso, sem tocar a água ao saber que estava também ali Cerinto, que negava a divindade do Senhor: "Fujamos -disse o Apóstolo- não seja que desabe o edifício que alberga dentro Cerinto, o inimigo da verdade".(continua)

POLICARPO E SEU TEMPO(III)

MARCION(85-150): temos visto como a segunda heresia cristã teve origem ao querer explicar pela ciência humana os mistérios divinos da criação e redenção, especialmente quando referidos ao Cristo. Se Cerinto foi o início desta confusão, Marcion contribuiu com seu dinheiro e influência para a sua propagação na Ásia e Roma. Os gnósticos, como são conhecidos com nome comum estes hereges, afirmavam que sua doutrina vinha de uma revelação esotérica dos próprios Apóstolos, e ao qual S. Ireneu(c 140) responde: A quem os Apóstolos revelariam esses mistérios escondidos aos outros discípulos, a não ser aos bispos aos quais eles confiaram suas igrejas? Por isso é importante saber quem eram esses bispos sucessores dos Apóstolos. Por falta de tempo e espaço -diz Ireneu - basta uma amostra: a da Igreja de Roma. Por causa de sua posição de cabeça (potior principalitas) todos os fiéis de qualquer lugar a ela devem se unir. E desta Igreja Ireneu passa a duas outras: a de Esmirna onde Policarpo ainda retém na memória as palavras dos Apóstolos e a de Éfeso em que João presidia perto do ano 100 até os tempos de Trajano( 98-107) Será o próprio Ireneu quem nos descreve o encontro em Roma de Policarpo com Marcion, como temos narrado em outro lugar. Típico de Marcion é em primeiro lugar a sua tendência de misturar idéias cristãs com pensamentos exóticos da filosofia do seu tempo e das religiões orientais. Depois é a de pensar livremente, independente da hierarquia eclesiástica querendo reformar as igrejas de sua época, pelo qual tem sido estudado de modo especial pelos reformadores protestantes como Adolfo Harnack. Pela rejeição do cânon  bíblico também se assemelha ao pensamento reformador do século XVI. Marcion não é gnóstico no sentido estrito da palavra. Os gnósticos eram pagãos que entre outras doutrinas admitiam certo verniz de cristianismo. Marcion é cristão em sua origem. Sua doutrina é de uma simplicidade extraordinária; por isso alcança a compreensão de grandes multidões. Era filho de um bispo de Sínope, no Ponto Euxino (mar Negro atual).Daí que Tertuliano o apelidasse do Lobo do Ponto. Porém, por ter seduzido uma jovem, foi afastado da igreja pelo próprio pai, segundo conta S. Hipólito. Tornou-se rico com o comércio e a navegação, pois era armador de barcos. Nos anos 130-40 foi a Roma e para ter influência dentro da comunidade doou 230 mil sextércios(60 mil denários), que mais tarde lhe foram devolvidos ao conhecer sua heresia. Em 144 fundou uma comunidade separada, com bispos e presbíteros próprios. Segundo Tertuliano, no fim de sua vida tratou de se reconciliar com a Igreja. Impuseram-lhe a obrigação de reparar os danos causados, mas a morte impediu que o fizesse.

DOUTRINA: Marcion escreveu duas obras hoje perdidas e um catálogo do Novo Testamento, dividido entre evangélico e apostólico, edição mutilada e tergiversada do canon. Ireneu o acusa de circuncidere scripturas, evangelium e decurtare epístolas(circuncidar as escrituras, o evangelho e encurtar as epístolas). Rejeitava todo o AT e todo o Novo relacionado com aquele, baseado numa interpretação exagerada da carta de Paulo aos Gálatas, enfrentando a lei antiga do temor à nova do amor. Desde a eternidade existiam dois deuses: um bom, criador do invisível, o supremo, pacífico e misericordioso. O outro, o do AT, demiurgo e criador do mundo visível, justiceiro, cruel, vingativo e belicoso. Não criou a matéria que existia em estado caótico(Gn 1,2), mas a organizou. Mas sendo imperfeito, sua imperfeição se mostra na sua obra. Pelo contrário a grande obra do deus supremo é a redenção. O deus supremo morava no mundo invisível e era ignorado não só dos homens mas também do demiurgo. Enviou seu filho Jesus Cristo para salvar os homens da tirania do AT e do deus dos judeus. Jesus não é o messias pois as profecias sobre ele não se cumpriram e o messias dos judeus ainda está por vir. Para não pertencer ao demiurgo, ordenador da matéria Jesus não teve corpo real, mas só aparente e não nasceu da Virgem Maria pois ele afirma que minha mãe e meus irmãos são os que cumprem a vontade do Pai(Lc 8,21). Não cresceu, mas apareceu subitamente na sinagoga de Cafarnaum no ano 15 de Tibério e pregou um evangelho de amor. Depois da morte desceu aos infernos e tirou de lá todos os rebeldes do AT como Caim, os sodomitas e os egípcios e deixou lá Abel, Noé, Abraão e os profetas. Os apóstolos, em vez de continuar a obra de Jesus, se deixaram influir pelos judeus à exceção de Paulo. Pregava a fé em Cristo e uma moral extremamente austera, com abstinência de carne e vinho, a renúncia aos prazeres carnais e ao matrimônio, que era lei judaica(crescei e multiplicai do Gn 1,28). A salvação será só para os que praticarem estas coisas. Os outros serão abandonados mais do que condenados. Mas o Deus bom os perdoará no dia em que o demiurgo for consumido pelo fogo. Synonyms for Holy, Sacred, Pure.



S. POLICARPO: CARTA AOS DE FILIPOS

OCASIÃO: Ignácio, o bispo-mártir de Antioquia, acabava de passar por Esmirna, a sede de Policarpo, dirigindo-se a Tróas, no extremo norte da península de Anatólia. Desde Tróas, Ignácio não pode escrever às igrejas situadas ao oriente de Esmirna, pela urgência de seu embarque com destino a Neápolis, o porto perto de Filipos na Grécia, ou melhor a Trácia antiga. A carta de Policarpo está cheia de reminiscências da carta de Paulo aos romanos e aos de Filipos, cidade importante visitada por Paulo em três ocasiões. Desde o cárcere Paulo escreve aos de Filipos agradecendo suas ofertas e contribuições. É a carta do famoso hino sobre o mistério de Cristo e sua kênosis ou esvaziamento de sua divindade.

CONTEÚDO: Da carta de Policarpo vamos extrair alguns trechos dignos de consideração: Policarpo louva a fé dos filipenses à qual chama de mãe de todos nós a condição de que seja acompanhada da esperança e precedida do amor (ágape); amor para com Deus, para com o Cristo e para com o próximo. Com efeito, quem se achar dentro destas virtudes cumpriu o mandato da justiça(santidade); pois quem tem amor está muito longe de todo pecado. Uma segunda afirmação é o de que o princípio de todos os males é o amor ao dinheiro, sem dúvida devido ao caso de Valente, presbítero entre eles que com sua mulher abandonou o lugar a ele concedido; e afirma que quem não se afasta da avareza ver-se-á maculado pela idolatria. É uma carta parenética, de exortação, em que as viúvas, os diáconos, os jovens aos que exorta à castidade e à afastar-se de todo mal, formam parte do conselho, dirigido também às virgens e aos anciões que devem visitar os doentes, tendo como diz o AT cuidado das viúvas, dos órfãos e dos pobres...longe de todo amor ao dinheiro. Como discípulo de João afirma: Quem não confessar que Jesus Cristo veio na carne é um anticristo... Esta é a palavra que nos foi transmitida desde o início.....Vivamos sobriamente para entregarmos as nossas orações sendo constantes em jejuns, pedindo a Deus que não nos leve à tentação...Se tendes oportunidade de fazer o bem não o difirais pois a esmola liberta da morte. Fala da fé em Jesus Cristo e em seu Pai que o ressuscitou dentre os mortos. A carta termina com o motivo da mesma: enviar as cartas de Ignácio, tanto das que a nós escreveu como as outras suas que tínhamos em nosso poder.

COMENTÁRIO: Vemos como a fé tem sua importância; mas existem duas circunstâncias humanas que Policarpo prevê como necessárias em ordem à vida de um cristão. Uma delas é negativa: o desprendimento das riquezas. O caso de Valente confirma o caso de Ananias e Safira dos atos (At 5,1-2). A outra é positiva: o amor (ágape) deve preceder à fé. Paulo dirá que a fé deve atuar pelo amor(Gl5,6), e exorta os de Corinto a que todos os atos sejam feitos com amor (I Co 16,14)



S. .POLICARPO MARTÍRIO

Sabemos como Policarpo esteve em Roma visitando o Papa Aniceto por ocasião da diferença de data da Páscoa entre orientais e ocidentais. De volta dessa visita sofreu um martírio que Ireneu classifica de ilustre e gloriosíssimo. Dele temos um testemunho plenamente histórico na carta que os de Esmirna, a sede de Policarpo, dirige a Filomélio, remota comunidade na Frígia. Onze cristãos de Filadélfia foram conduzidos a Esmirna para sofrer, nesta última cidade, o martírio. Era imperador na época Antonino Pio (86-161) benévolo aos cristãos. Estes porém, estavam sempre expostos à ira do populacho, sob o rescrito de Trajano ao que magistrados indecisos nem sempre se atreviam opor-se. Entre os cristãos de Filadélfia destacou por seu valor Germânico, que fez o que o grande Ignácio de Antioquia queria fazer com as feras: atiçá-las, para que acabassem cedo o seu ofício e assim sair deste mudo de iniqüidade. Diante dessa cena no anfiteatro as turbas gritaram: Moram os ateus! ‘Buscai Policarpo! O procônsul Quinto Estácio Quadrado cedeu à pressão da chusma e deu ordem para que se fizessem as diligências necessárias para deter o bispo de Esmirna. Como um dos filadélfios por nome Quinto, se denunciasse a si mesmo e depois diante das feras, por temor, apostatasse, os cristãos seguiram o conselho do Senhor de fugir e esconder-se. Por isso Policarpo fugiu para uma vila no campo. Ali Policarpo passava o tempo orando por todas as igrejas espalhadas por toda a terra. Policarpo teve uma visão três dias antes do martírio: o seu travesseiro estava rodeado pelo fogo. Policarpo comentou com os que o acompanhavam: tenho que ser queimado vivo.

TRAIÇÃO DE UM ESCRAVO: A polícia sob o comando de Herodes chegou a uma casa da vila e não o encontrando prendeu dois escravos. Um deles, sob tormento, declarou o lugar onde Policarpo estava escondido. Levando o escravo como guia, numa sexta feira, na hora da refeição, todo um esquadrão de cavalaria saiu em busca de Policarpo como se fosse um perigoso bandido. Quando chegaram ao lugar onde estava o mártir era já tarde e Policarpo estava deitado no andar superior. Poderia ter escapado mas se entregou dizendo: faça-se a vontade de Deus. Desceu e tranqüilamente começou a conversar com seus perseguidores. Estes ficaram assombrados pois não pensavam que fosse um ancião em idade tão avançada, com tanta serenidade ante o qual não havia a necessidade daquele aparato policial tão extraordinário. Neste ponto Policarpo deu ordens para que lhes dessem de comer e beber e pediu uma hora para orar antes de seguí-lo. Concederam-lhe o tempo necessário e de pé orou por duas horas. Maravilharam-se os policiais e até sentiam remorso em ter que prender um ancião tão bom e amável com eles. Conduziram-no à cidade montado num jumento. Era dia do grande Sábado. No caminho encontraram-se com Herodes, o chefe da polícia e seu pai Nicetas. Eles amavelmente o montaram na sua carruagem e, sentados a seu lado, trataram de persuadi-lo dizendo: Que inconveniente há em dizer César senhor, e sacrificar e cumprir os ritos e salvar a vida? Calado no início, Policarpo por fim respondeu: Não tenho intenção de fazer o que me aconselhais. Fracassados então no seu propósito, eles o jogaram fora da charrua de modo que na queda Policarpo feriu a barriga da perna. Policarpo, como se nada tivesse, caminhava agora de pé animosamente conduzido ao estádio.

BETSAIDA: Com todo cuidado o evangelista nota que a Betsaida (casa de pesca) era a que estava na Galiléia, no oeste do Jordão à beira mar, território de Antipas, para distinguí-la da Betsaida Julia ou Júlia no leste do mesmo rio e um pouco ao norte do lago, que pertencia à Gaulanítide, território este de Filipo. Da Betsaida galileana eram oriundos tanto Filipe como André e Pedro (Jo 1,44). Nela realizou Jesus numerosos milagres(Mt 11,21) Foi à segunda Betsaida que Jesus se retirou após a prisão de João, segundo anota Lucas(9,10). Autores há que dizem só existe a Betsaida Julia, embora esta tenha uma ubicação diferente da primitiva, mas sempre no lado leste do Jordão

S. POLICARPO . MARTÍRIO. 2a PARTE

Ao tempo em que Policarpo entrava no estádio, uma voz veio do céu dizendo: Tende bom ânimo, Policarpo, e comporta-te varonilmente. O cronista diz que ninguém viu a pessoa que disse isso; mas a voz foi ouvida pelos cristãos que estavam presentes. Levantou-se um grande tumulto entre os assistentes ao conhecer que era Policarpo o preso.

Levado à presença do procônsul este tratou de persuadi-lo a renegar a fé, dizendo: "Tem consideração de tua idade...Jura pelo gênio de César. Muda teu modo de pensar. Grita: morram os ateus!" (os cristãos eram ateus porque não aceitavam os deuses romanos)

Policarpo olhou para as turbas que enchiam o estádio, tendendo sua mão e dando um suspiro, elevando os olhos ao céu disse: "Sim, morram os ateus!"

"Jura e serás livre. Amaldiçoa o teu Cristo"- Replica o procônsul.

Então Policarpo responde: "Oitenta e seis anos há que o sirvo e nenhum dano tenho dele recebido. Como posso amaldiçoar o meu Rei que me salvou?"

Insiste o procônsul: "Jura pelo gênio do César".

Responde Policarpo: "Se tens como questão de honra obrigar-me a jurar pelo gênio, como tu dizes, do César, e finges ignorar quem eu sou, ouve com toda claridade: sou cristão. E se tens interesse em saber que coisa é o cristianismo dá-me um dia de trégua e escuta-me."

Responde o procônsul: "Convence o povo."

E Policarpo: "A ti te considero digno de escutar minha explicação pois nós professamos uma doutrina que nos manda tributar honra devida aos magistrados e autoridades por Deus estabelecidas, enquanto não exista detrimento de nossa consciência; mas a esse populacho não o considero digno de ouvir minha defesa".

Disse o procônsul: "Tenho feras que vou lançar contra ti se não mudas de opinião".

E Policarpo: "Podes trazê-las; pois uma mudança do bem para o mal nós não podemos admitir. O lógico é mudar do mal para o bem".

"Farei que te consumas pelo fogo, já que menosprezas as feras, se não mudas de opinião".
E Policarpo; "Ameaças-me com um fogo que arde só um momento e logo está apagado. Parece que não conheces o fogo do juízo vindouro e do eterno suplício que está reservado aos ímpios. Mas por que demorar? Traz o que quiseres".
Enquanto Policarpo dizia estas coisas, todos o viam cheio de fortaleza e alegria e seu semblante irradiava tal graça que não só não se notava decaimento pelas ameaças a ele dirigidas, mas foi o procônsul quem estava fora de si; este deu ordem a seu pregoeiro que de pé, no meio do estádio, disse por três vezes este pregão: Policarpo confessou que é cristão.
Apenas ouvido este pregão os gentios, e com eles a turba de judeus de Esmirna, com raiva incontida e a grande gritos, começaram a vociferar: "Esse é o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor de nossos deuses, o que tem induzido a muitos a não sacrificar e adorar os mesmos". E pediam à vozes ao exilarca Filipe que soltasse um leão contra Policarpo. Mas o exilarca respondeu que não tinha faculdade para isso, pois já tinha acabado o combate das feras. Então todos gritaram para que Policarpo fosse queimado vivo, porque devia se cumprir o sinal em que viu sua almofada envolta em chamas de modo que Policarpo predisse profeticamente : Devo ser queimado vivo. (continua)
S.POLICARPO. MARTÍRIO III PARTE
Como todos ouvissem: "Policarpo seja queimado vivo", correram aos banhos e às oficinas dos prateiros para colher lenha e arbustos e principalmente os judeus. Preparada a pira deste modo, Policarpo desatou o cinto, desvestiu o manto e preparava-se também a descalçar as sandálias, coisa que ele não acostumava fazer por causa das dificuldades de sua idade, de modo que usavam fazê-lo os fiéis varões por quererem beijar seu santo corpo. Quiseram pregá-lo ao poste de ferro conforme o costume e a lei. Então Policarrpo suplicou: "Permiti-me que fique como estou, porque quem me deu o querer me dará também o poder e fará tolerável também à minha vontade o fogo ardente". Assim pois não foi pregado ao ferro, mas ligadas as mãos à espalda, como consagrado ao altar, traspassou o martírio presente. Então olhando os astros e o céu disse: "Senhor Deus, Onipotente! Pão de teu amado e louvado Filho, Jesus Cristo, por quem temos recebido teu conhecimento, Deus dos anjos e das potestades, de toda criação e de toda raça dos justos que vivem na tua presença! Eu te abençôo, porque me fizeste digno desta hora a fim de tomar parte, contado entre teus mártires, no cálice de Cristo para ressurreição de eterna vida em alma e corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo. Seja eu com eles recebido hoje em tua presença em sacrifício pingue e aceitável, conforme de antemão mo preparaste e mo revelaste e agora o tendes cumprido. Tu o inefável e verdadeiro Deus! Portanto eu te louvo por todas as coisas, te abençôo e te glorifico por mediação do eterno e sumo Sacerdote, Jesus Cristo, teu Filho amado, pelo qual seja a glória a ti com o Espírito Santo, agora e nos séculos por vir. Amém".
Apenas teve enviado ao céu seu amém e concluída a súplica, os ministros da pira prendem fogo à lenha. E naquele ponto, levantando-se um grande fogareiro, viu-se, por aqueles a quem foi dado vê-lo um prodígio: O fogo, formando uma espécie de abóbada como a vela de um navio enchida pelo vento, que rodeava por todas as partes o corpo do mártir que estava no meio das chamas, não como carne que se assa mas como pão que se coze, ou como ouro e prata que se purificam no forno. E na verdade nós percebemos um perfume tão intenso como se se levantasse uma nuvem de incenso ou de qualquer outro aroma precioso.
Como vissem os sem lei que o corpo de Policarpo não podia ser consumido pelo fogo deram ordem ao confector (rematador) para dar-lhe o golpe de graça afundando um punhal no peito. Cumprida a ordem brotou tal quantidade de sangue que apagou o fogo da pira e a turma de pagãos ficou estupefata de que houvesse tal diferença entre a morte dos infiéis e a dos escolhidos. Ao número destes escolhidos pertence Policarpo, varão sobre toda ponderação admirável, mestre em nossos mesmos tempos, com espírito de apóstolo e profeta, bispo enfim da Igreja Católica de Esmirna. E é assim que toda palavra saída de sua boca teve cumprimento ou o terá com certeza. Os judeus pediram ao procônsul para retirar o cadáver; não seja -diziam eles- que os cristãos, abandonando o crucificado, comecem a render culto a Policarpo. Mas os cristãos responderam: adoramos a Cristo como Filho de Deus; mas aos mártires lhes tributamos com toda justiça a homenagem de nosso afeto como a discípulos e imitadores do Senhor, pelo amor insuperável que mostraram a seu rei e mestre. O centurião, ao ver a porfia entre judeus e cristãos, mandou queimar o cadáver ao uso pagão. Assim os cristãos puderam recolher os ossos, mais preciosos que pedras de valor e mais estimados que ouro puro, os quais depositaram em lugar conveniente.
MARTÍRIO DAS SANTAS PERPÉTUA E FELICIDADE
A Marco Aurélio, o imperador filósofo, sucede o reinado de Cômodo(180-192) o filho degradado e insano, que quis ser coroado pelo senado, vestido como gladiador. Morreu estrangulado por um campeão de luta por instigação dos optimates. Os três meses de reinado de Pertinax, terminaram por sua vez ao ser também assassinado pela guarda pretoriana. Traz a vergonha de um Império leiloado e comprado por Dídio Juliano ao preço de 7500 denários a cada pretoriano, apareceu o reinado de Séptimo Severo, o general de origem humilde, que transformou o império numa caserna militar em que a lei foi substituída por ordens autoritárias. Não faltaram as matanças de seus inimigos, até 30 senadores, pois afirmava: ‘Quem quiser salvar a unidade do Império não deve por certo tempo poupar o sangue, a fim de poder pelo resto de sua vida, mostrar-se amigo dos homens". Infelizmente não teve herdeiros à sua altura. Por isso comentava-se que ou não devia ter nascido, ou não devia ter morrido. Essa sua obstinação de salvar o império acabou, pelo que diz respeito aos cristãos, num edito entre os anos 200-202 contra os mesmos. Estava casado com a filha de um sacerdote do Sol de origem síria, Julia Domna. Era esta partidária de um sincretismo que se concretizava em torno ao culto do Sol Invictus. Naturalmente o cristianismo era refratário a essa teoria assim como o judaísmo. Ela, sem dúvida, foi a promotora do edito. Assim o narra Esparciano, escritor da História Augusta: "Proibiu Séptimo Severo se tornar judeus sob grave castigo; o mesmo também decretou sobre os cristãos". Se o decreto de Nero determinava ut Christiani non sint( que não existam cristãos), o decreto de Séptimo será ne christiani fiant ( que as gentes não se tornem cristãs). Com o edito de Trajano os cristãos não eram perseguidos e só podiam sê-lo caso fossem denunciados de antemão. Agora era um passo mais: não se podia batizar e tornar-se cristão, e diante disso eram as autoridades cristãs as que entravam sob o peso da lei.
É neste contexto que devemos narrar o martírio das santas Perpétua e Felicidade e seus companheiros no norte da África, precisamente a pátria do imperador reinante. As atas deste martírio são autênticas e um dos documentos mais admiráveis e puros que nos legou a antiguidade cristã. O mais singular deste documento é que parte do mesmo foi escrito pelos próprios protagonistas Perpétua e Sáturo, os quais no próprio cárcere relatam notas sobre as circunstâncias de sua prisão, o processo e as visões com que são confortados até mesmo a véspera de sua morte.
Nesses tempos o falso profeta Montano e seu séquito de mulheres inspiradas no Espírito, comovia a Igreja do Oriente ao Ocidente, da Frígia às Gálias de Roma a Cartago. Em Roma, o Papa Zeferino condenava o montanismo no ano 200 e em Cartago o ardente Tertuliano terminará adotando a nova seita do Paráclito. Isso não impede que Perpétua se comunique com o Senhor e que os mártires sejam favorecidos com comunicações divinas. Também Cipriano, de cujo montanismo ninguém suspeita, é um carismático e visionário. Também Blandina, a doce escrava dos mártires de Lion, nada sente ao ser cornada por um touro bravo, porque está em íntima conversa com Cristo. A mística não é propriedade dos iludidos, mas uma realidade dos místicos de todos os tempos.
SANTAS PERPÉTUA E FELICIDADE. (II PARTE)
Chegamos às atas do martírio. O prólogo é montanista pois nele justifica-se escrever os novos documentos e revelações, que devem ser comparadas com as antigas e até se antepor às mesmas. Imediatamente nos diz que em Thuburba Minus, atual Teburba, perto de Cartago dois jovens escravos, Revocato e Felicidade, outros varões não especificados, Saturnino e Secúndulo e a nobre matrona Víbia Perpétua de vinte e dois anos, com um filho de peito, foram postos em prisão preventiva ou "custodia libera", que podia cumprir-se na própria casa, pela aplicação estrita do direito romano de Séptimo Severo, pois todos os detentos eram catecúmenos e não cristãos velhos. O catequista não se encontrava entre eles quando foram arrestados. Seu nome era Sáturo. Não sabemos se era sacerdote ou diácono. Ele não quis abandonar o pequeno rebanho e espontaneamente se uniu aos arrestados. Trataremos de resumir, sempre buscando as frases mais importantes, como trigo alimentar, e deixando a palha da redação, sem outra importância, a não ser servir de aglutinação do texto.
Deus cumpre sempre o que promete, para testemunho contra os que não crêem e em benefício dos que crêem. O recopilador, continua: reproduzo o que ela, Perpétua, escreveu: "Como meu pai desejara ardentemente fazer-me apostatar disse-lhe: Vês esse utensílio aí no chão, uma orca(=vaso do feitio de uma âncora)? Acaso pode ter ele outro nome? Pois também eu não posso me chamar com outro nome: a não ser cristã. O pai, único na família que não era cristão, me maltratou com palavra e até fisicamente; logo se ausentou. No espaço de poucos dias fui batizada e o Espírito me disse que não devia pedir outra graça a não ser a paciência de sofrer em minha carne. Mais alguns dias e me encerraram num cárcere de verdade. Senti pavor pois jamais tinha experimentado trevas semelhantes. Que dia aquele tão terrível! O calor era sufocante pelo espaço pequeno e grande número de prisioneiros(estamos no norte da África na primeira quinzena do mês de maio). Os soldados nos tratavam brutalmente e eu também estava angustiada pelo meu filho.
Então Tércio e Pompônio, diáconos abençoados, que nos assistiam, lograram a preço de ouro, que se nos permitisse sair umas horas a respirar em um lugar melhor do que o porão do xadrez. Saindo pois do fundo da masmorra, foi nos permitido respirar ar fresco por umas horas e eu consegui dar o peito a meu filho, meio morto de inanição. Cheia de angústia por ele falava a minha mãe, animava a meu irmão e lhes recomendava meu filho. Afligia-me vê-los sofrer por se afligirem por minha causa. Durante muitos dias me senti angustiada em semelhantes aflições. Por fim consegui que a criança ficasse comigo e desta forma me senti com novas força e aliviada pelo trabalho e solicitude com o filho. E subitamente o xadrez se transformou num palácio; de modo que preferia morar lá, antes de qualquer outro lugar. Então me disse meu irmão: "Senhora irmã, tens subido a uma alta dignidade, tão alta que podes pedir uma visão para que te manifeste se tua prisão pode terminar em martírio ou em liberdade". E eu que tinha consciência de falar familiarmente com o Senhor de quem tão grandes benefícios tinha recebido lhe prometi confiadamente: Amanhã te darei a resposta".
SANTAS PERPÉTUA E FELICIDADE(III PARTE)
Escreve Perpétua: Após ter respondido ao meu irmão que eu lhe diria certamente o final de meu destino, naquela noite tive um sono: vi uma escada de bronze de maravilhosa grandeza que subia até o céu; mas era muito estreita de modo que só se podia subir de um em um. Nos lados da escada estavam pregados toda classe de instrumentos de ferro: espadas, lanças, arpões, punhais, estiletes; de modo que se alguém subia descuidadamente ou sem olhar para o alto, ficava atravessado e suas carnes prendidas entre os ferros. Embaixo da escada estava um dragão tendido de enorme grandeza, cujo ofício era organizar armadilhas aos que intentavam subir e espantá-los para que não o fizessem.
Ora, Sáturo ( o mestre na fé) tinha subido antes de mim. Quando chegou ao alto da escada voltou-se e me disse: "Perpétua te espero; mas, cuidado, não te morda esse dragão".
E eu lhe respondi: "Não me fará dano em nome de Jesus Cristo".
O dragão, como se me temesse, foi sacando pouco a pouco a cabeça embaixo da escada e eu, como se fosse o primeiro escalão, pisei sua cabeça. Subi e vi um jardim de imensa extensão e sentado no meio um homem de cabeça branca, vestido de pastor, de porte alto, que estava ordenhando as ovelhas. Muitos milhares, vestidos de branco o rodeavam.
O pastor levantou a cabeça, olhou-me e disse: "Sejas bem-vinda filha".
Do queijo que tinha nas mãos deu-me um bocado e eu o recebi com as mãos juntas e o comi. Todos os circunstantes disseram: Amém.
E ao som desta voz despertei-me mastigando ainda uma coisa doce. Imediatamente contei ao meu irmão a visão e ambos compreendemos que me esperava o martírio. E desde esse momento começamos a não ter já esperança neste mundo.
Daí a poucos dias correu o rumor de que íamos ser interrogados. Veio também da cidade meu pai, aflito de pena, e se aproximou de mim com a intenção de me derrubar e me disse: "Compadece-te minha filha de minhas canas; compadece-te de teu pai se é que mereço ser chamado por ti de pai. Se com estas mãos te levei até essa flor de tua idade, se te preferi a todos teus irmãos, não me entregues ao opróbrio dos homens. Olha teus irmãos, olha tua mãe e a tua tia materna. Olha teu filho que não poderá sobreviver. Depõe o ânimo; não nos aniquiles a todos, pois nenhum de nós poderá falar livremente se a ti te suceder alguma coisa".
Assim falava como pai, levado de sua piedade, ao mesmo tempo que beijava minhas mãos e se jogava a meus pés e me chamava entre lágrimas, não já sua filha, mas sua senhora. E eu estava angustiada de dor por ele, pois era o único de toda minha família que não poderia se alegrar com meu martírio.
SANTAS PERPÉTUA E FELICIDADE (IV PARTE)
Num momento em que estávamos comendo, de repente fomos levados, interrompida a comida, para sermos interrogados em praça pública. Congregou-se uma multidão. Subimos ao estrado. Interrogados os meus companheiros todos confessariam sua fé. Chegou meu turno. Súbito apareceu meu pai com o menino nos braços e me disse; "Compadece-te do filho tão pequenino".
O procurador que tinha recebido jus gladii (poder de vida ou morte) no lugar do procônsul Minucio Timiniano acrescentou: "Tem consideração com as canas de teu pai . Tem piedade da tenra idade de teu filho. Sacrifica à saúde dos imperadores".
Eu respondi: "Não sacrifico".
Hilariano: "Logo és cristã?".
"Sim, sou cristã".
Como meu pai se mantivesse firme em seu intento de salvar-me Hilariano deu ordem para que o tirassem dali e até bateram nele. Eu senti os golpes em meu pai como se fossem dados a mim. Assim me senti afligida por sua infortunada velhice.
Então Hilariano pronunciou a sentença contra todos nós, condenando-nos às feras.
Como a criança estivesse acostumada a tomar o peito e permanecer comigo no xadrez, sem perder um momento enviei o diácono Pompônio para pedi-la a meu pai. Mas meu pai não quis entregá-la. Então, por quere-lo Deus, nem o menino desejou mais o leite, nem eu senti mais a comichão. Assim pedi ao Senhor que não fosse mais atormentada pela angústia do filho e pela dor de meus peitos.
Passados alguns dias, e estando todos em oração, me veio à boca o nome de Dinócrates. Era um meu irmão que tinha morrido aos sete anos de um câncer no rosto. Nunca tinha pensado mais nisso e então me dei conta de que eu era digna e tinha possibilidade e obrigação de rogar por ele. Assim comecei a rezar por ele. Naquela mesma noite tive uma visão. Vi Dinócraters que saia dum lugar tenebroso onde havia também outros muitos, sufocado de calor, as vestes sujas e a cor pálida. Tinha no rosto a ferida que ocasionou sua morte. Entre ele e eu existia uma grande distância de modo que era impossível aproximar-nos. Além disso no lugar existia um poço rodeado de um muro de modo que o menino não podia alcançar a água do mesmo. Dinócrates esforçava-se para poder beber. Eu sentia pena porque aquele poço estava cheio de água até a borda e, não obstante pela altura do muro, meu irmão não podia beber. Então me despertei e senti certamente que meu irmão achava-se penalizado. Mas eu tinha certeza de que podia ajudá-lo e por isso não cessava de orar por ele todos os dias até que fomos trasladados até o cárcere castrense, pois em espetáculo castrense tínhamos que afrontar as feras.. Celebrava-se então o natalício do César Geta. Eu fiz oração por meu irmão dia e noite a fim de que por minha intercessão fosse perdoado.
No dia em que permanecemos no cepo tive a seguinte visão: Vi o lugar que tinha visto antes e Dinócrates limpo de corpo, bem vestido e refrigerado; e onde antes estava a ferida, vi uma cicatriz e o poço sem o muro alto e só até o umbigo do menino. Este sacava água sem cessar. Sobre o brocal do poço havia uma copa de ouro cheia de água e Dinócrates bebia continuamente dela. A copa nunca se esvaziava. Saciada a sede, retirou-se para brincar como os meninos costumam fazê-lo. Então despertei e compreendi que meu irmão tinha saído da pena. É a primeira vez que na Igreja aparece um purgatório e a crença na eficácia da oração pelos defuntos.
SANTAS PERPÉUA E FELICIDADE (V PARTE)
Depois de alguns dias, Pudente, segundo oficial com autoridade no cárcere, começou a ter grande consideração para com os cristãos por entender que existia uma digna virtude entre os presos de tal religião. E assim admitia muitos que vinham visitar-nos com o fim de aliviar nossa solidão. Quando se aproximou o dia do espetáculo veio meu pai, cheio de pena e começou a arrancar os cabelos da barba, a se jogar no chão, pegando sua face na terra, maldizendo sua sorte e sua ancianidade e dizer tais palavras que poderiam comover o mundo inteiro. Eu sentia na alma sua infortunada velhice.
No dia anterior ao nosso combate tive a visão seguinte: O diácono Pompônio vinha às portas do xadrez e chamava com força. Eu sai e abri. Vinha revestido de uma túnica branca e de chinelos de variadas cores e me disse: "Perpétua, estamos esperando-te. Vem".
E me tomou pela mão e começamos a andar por lugares ásperos e tortuosos. Por fim, com muito esforço, chegamos ao anfiteatro e Pompônio me levou ao centro da arena e me disse: "Não tenhas medo. Eu estarei junto de ti e combaterei ao teu lado". E foi-se.
E eis que um gentio imenso clamava enfurecido. E como eu sabia que estava condenada às feras me maravilhava não ver nenhuma em volta. Porém ai estava um egípcio de terrível aspecto, acompanhado de seus ajudantes com ânimo de lutar contra mim. Mas também ao meu lado tinha uma série de jovens formosos, dispostos a defender-me. Logo me despiram e fiquei convertida em varão. E meus colegas me massagearam com azeite, como é costume fazê-lo com os lutadores e gladiadores do circo. O egípcio entretanto, se revoltava no pó do anfiteatro. Então saiu um homem de extraordinária estatura, tanto que sobrepujava a cima do anfiteatro, vestido de túnica com um manto de púrpura e um broche no meio do peito formado por duas fivelas de ouro e calçado com chinelos revestidos de ouro e prata. Portava uma vara ao estilo de um "lanista" ou adestrador de gladiadores e um ramo verde do qual pendiam maçãs de ouro. Pediu silêncio e disse: "Se este egípcio vencer a mulher, a matará com sua espada; mas se a mulher fosse a vencedora, ela receberá este ramo". E retirou-se.
Aproximamo-nos um do outro e começou um combate de pugilato. Ele tratava de me agarrar pelos pés, mas eu lhe batia com meus talões. Então fui levantada no ar e comecei a feri-lo como quem não pisa a terra. Mas como entendi que o combate se prolongava, juntei as mãos de forma a entrelaçar os dedos e agarrei assim a testa dele e caiu no chão e pisei sua cabeça. O povo prorrompeu em gritos de vitória e meus partidários entoaram um hino de vitória. Eu me aproximei do lanista e ele me deu o ramo, me beijou e me disse: "Filha, a paz esteja contigo".
Eu me dirigi exultante de alegria para a porta Sanavivaria ou dos vivos e naquele momento acordei. E entendi que meu combate não devia ser travado contra as feras mas contra o diabo; porém estava certa de que a vitória estava do meu lado.
Tais foram os fatos acontecidos até o dia anterior ao combate. O que aconteceu no combate se alguém esteve presente que o escreva. Até aqui temos o relato de Perpétua que outros, como veremos, completaram.
SANTAS PEERPÉTUA E FELICIDADE (VI PARTE)
Vamos expor um outro relato, o de Sáturo, escrito de sua própria mão. Sonhou que ele e os companheiros tinham sofrido já o martírio. Nesse instante -escreve- tínhamos saído da carne e quatro anjos nos transportavam em direção ao Oriente( era onde nascia a vida, porque era onde nascia o sol). Suas mãos não nos tocavam e ascendíamos como quem sobe uma colina. Passado o primeiro mundo ( o da terra) vimos uma luz imensa e eu disse a Perpétua: "Isto é o que o Senhor nos prometia. Já temos cumprida a promessa. E entanto éramos conduzidos pelos quatro anjos, abriu-se diante de nós um grande espaço como um vergel, cheio de rosas e toda classe de flores. A altura das roseiras era como a de um cipreste e suas folhas caiam no chão continuamente. No vergel encontramos outros quatro anjos mais gloriosos que os que nos acompanhavam e quando nos viram gritaram: "São eles, são eles!"
Os quatro anjos que nos conduziam nos deixaram no chão e atravessamos andando um largo caminho como de cem metros de comprimento. Ali encontramos Jocundo, Saturnino e Artásio, queimados vivos antes na mesma perseguição, junto com Quinto, morto no cárcere. Perguntamos onde estavam os outros e os anjos nos disseram: "Vinde primeiro e saudai o Senhor".
Assim pois, chegamos a um lugar cujas paredes pareciam ser de pura luz, e antes de entrar os quatro anjos da porta nos vestiram de vestes brancas. Entramos e ouvimos uma voz uníssona que repetia: "Agios, Ágios, Agios"(=Santo, Santo, santo) sem interrupção. E vimos sentado num trono um ser que parecia um homem com cabelos brancos porém de aspecto juvenil. Mas não podíamos ver seus pés. Na sua destra e na sua esquerda estavam quatro anciãos e detrás estavam os demais anciãos em crescido número. Entrando, paramos atônitos diante do trono; porém os quatro anjos nos levantaram do chão e beijamos o Senhor, que nos acariciou o rosto com a mão. E os outros anciãos disseram : "Firmes!" E assim estivemos e os beijamos com o ósculo da paz.
E os anciãos nos disseram: "Ide e brincai".
E eu disse a Perpétua: "Já tens o que desejavas".
E ela me respondeu: "Graças a Deus que fui alegre na carne; mas aqui me encontro mais alegre ainda".
Saímos dali e encontramos o bispo Optato à direita e Aspásio, presbítero à esquerda, separados um do outro e tristes. E se lançaram aos nossos pés e nos suplicaram: "Ponde paz entre nós, pois tendes saído do mundo e nos deixastes desta forma separados".
E lhes respondemos: "Não és tu nosso Pai e tu nosso sacerdote? Como é que vos humilhais prostrando-vos aos nossos pés? Comovemo-nos e nos abraçamos. Perpétua começou a falar com eles em grego e nos retiramos com eles ao vergel, embaixo de uma roseira. Mas enquanto falávamos com eles os anjos lhes disseram : "Deixai que gozem sem se preocupar; e se tendes entre vós distensões, perdoai-vos mutuamente. E disseram a Optato: "O que deves fazer é corrigir teu povo, pois se reúnem contigo como se saíssem do circo contendendo cada um por seu bando (o circo era onde as corridas de carros dividiam, como hoje o futebol, os partidários dos aurigas, separados pelas cores). E pareceu como se quisessem fechar as portas. E reconhecemos ali muitos irmãos, especialmente os mártires. Todos nos sentíamos confortados por uma fragrância indescritível que nos satisfazia. Então me despertei cheio de gozo.
É interessante como aparece a intercessão dos santos mártires para, por seu intermédio, obter a paz dentro das distensões da Igreja.
SANTAS PERPÉTUA E FELICIDADE (VII PARTE)
Felicidade, a escrava, também teve sua correspondente graça da parte do Senhor. Estava no oitavo mês da sua gravidez e temendo não conseguir a palma do martírio por causa de sua prenhez, já que a lei romana impedia a execução das mulheres grávidas, achava-se sumida em grande tristeza. O mesmo acontecia com os colegas de martírio, pensando que deviam deixá-la sozinha como caminhante solitária pelo caminho da comum esperança. Juntando, pois, em um só os gemidos de todos, fizeram oração ao Senhor, três dias antes do espetáculo no anfiteatro. Terminada a oração, começou Felicidade a sentir as dores de parto. E como ela gritasse, se queixando da dor de um parto difícil, disse-lhe um dos oficiais da prisão: "Tu que assim te queixas agora, que farás quando fores atirada às feras que desprezaste, quando não quiseste adorar o César?
E ela respondeu: "Agora sou eu que sofro a dor que padeço; mas no anfiteatro haverá um outro em mim que padecerá por mim; pois também eu padecerei por Ele".
E assim deu à luz uma menina que uma das irmãs criou como filha.
Ora: Já que o Espírito Santo permitiu e quis que se escrevesse todo o desenvolvimento do combate, por mui indignos que nos sintamos para descrever semelhante glória, vamos executar um "fidei comisso" da santa mulher Perpétua contentando-nos em acrescentar um documento, testemunha de seu constante e sublime ânimo.
Como o tribuno os tratasse com demasiada dureza, pois temia que fugissem do cárcere por arte de ocultos e mágicos encantamentos, Perpétua o encarou e lhe disse: "Como é que não nos permites alívio algum, sendo como somos réus nobilíssimos, pois devemos lutar no natalício do César? Ou não é glória tua que nos presenteemos a ele com o melhor dos aspectos?". O tribuno sentiu medo e vergonha e assim deu ordens para que os tratassem mais humanamente de modo que autorizou a entrar no cárcere os irmãos dela e dos outros e que pudessem se consolar mutuamente, máxime que o vice-diretor do cárcere tinha abraçado a fé. Igualmente no dia anterior ao suplício, ao tomar aquela ceia que chamavam livre, que eles converteram num ágape, dirigiram-se ao povo com ousadia, ameaçando-lhes com o julgamento divino, e testemunhando a alegria do martírio.
Sáturo, mofando-se da curiosidade dos concorrentes, condenados por motivos outros, dizia: "Não tendes o bastante com o dia de amanhã? Por que olhais com tanto prazer o que aborreceis? Hoje amigos, amanhã inimigos. Porém fixai os nossos rostos para que os possais reconhecer no último dia (o do julgamento final). Deste modo retiravam-se envergonhados e muitos abraçaram a fé.(continua)

SANTAS PERPÉTUA E FELICIDADE (última parte) Brilhou por fim o dia de sua vitória e saíram do cárcere para o anfiteatro como se fossem ao céu, radiantes de alegria e formosos de rosto, comovidos não pelo temor mas pelo gozo. Seguia-os Perpétua como uma matrona de Cristo com o rosto iluminado e passo tranqüilo como uma escolhida de Deus, dominando a todos com a força de seu olhar de modo a baixarem os olhos. Se foi Tertuliano o redator final, podemos descobrir nesse texto o virgiliano de incessu patet dea (em seu modo de andar mostra-se a deusa) Felicidade ia também alegre por ter saído bem de seu parto para lutar contra as feras passando do sangue do parto ao sangue do martírio que seria seu batismo final. Quando chegaram à porta do anfiteatro queriam obriga-los a se revestir de modo que os homens tivessem os paramentos dos sacerdotes de Saturno e as mulheres de Ceres. Mas os mártires os rejeitaram alegando esta razão: justamente temos chegado ao ponto presente de nossa libérrima vontade a fim de que não fosse violada nossa liberdade. Se temos entregado nossa vida é para não fazer nada semelhante. Tal foi nosso pacto convosco. O tribuno reconheceu as razões e autorizou a que entrassem como estavam vestidos. Perpétua entoava hinos, Revocato, Saturnino e Sáturo ao chegarem em frente da tribuna de Hilariano o increparam dizendo; Tu nos julgas agora; a ti te julgará Deus. Exasperado, o público pediu que os açoitassem enquanto desfilavam diante dos venatores( gladiadores que lutavam com as feras como caçadores das mesmas). Saturnino e Revocato foram experimentar as garras de um leopardo para depois ser atacados por um urso. A Sáturo lhe tocou em sorte um javali que não lhe atacou mas se arremeteu contra o venator mordendo sua perna de modo que o caçador morreu dias depois. Logo arrastou Sáturo sem feri-lo. Por isso o ataram ao poste soltando um urso. Mas este não quis sair da gaiola. E Sáturo foi retirado ileso.
Contra as mulheres preparou o tribuno uma vaca brava que até no sexo emulava a inteireza de ambas. Nuas e envoltas numa rede, foram levadas ao espetáculo. O povo sentiu vergonha ao contemplar uma jovem delicada e uma mulher mãe recente com os sinais da maternidade ainda visíveis. Por esta razão, foram retiradas para que vestissem uma túnica. A primeira a ser atacada foi Perpétua que, como se fosse uma boneca, foi lançada ao alto, caindo de costas; mas, apenas se incorporou, recolheu a túnica desgarrada e cobriu a coxa, acordando-se antes do pudor que da dor . E pedindo uma agulha recolheu os cabelos, pois não era decente que uma mártir sofresse com a cabeleira esparsa, para não dar aparência de luto no momento de sua glória ( as mulheres soltavam os cabelos como sinal de luto). Assim composta, se levantou e como visse Felicidade tendida no chão acercou-se, deu-lhe a mão e a levantou. E ambas juntas se mantiveram de pé e vencida a dureza do povo foram levadas à porta Sanavivaria( dos gladiadores vencedores). Lá foi recebida por Rústico, catecúmeno e amigo e como se despertasse de um sonho, ante o estupor de todos disse: "Quando soltarão a vaca brava contra nós?" Havia estado em êxtase e não sabia o que tinha acontecido. Mas vendo as feridas do corpo admitiu os fatos. Chamou seu irmão, então catecúmeno, e lhe disse para permanecer firme na fé, para amar os cristãos.
Sáturo por sua parte exortava o soldado Pudente dizendo: Certamente como predisse nenhuma fera me tocou. Mas verás como um leopardo de uma dentada vai acabar comigo. E quando o espetáculo estava para terminar, foi solto um leopardo que de uma só dentada banhou o corpo do mártir em sangue de modo que o povo gritou: Bom banho! Sem dúvida cortou a carótida; e ao expirar disse ao soldado Pudente: lembra-te da fé e que estas coisas não te perturbem, mas te confirmem na mesma. E molhando um anel no sangue o entregou ao soldado como herança. Exânime foi levado para ser rematado com os outros no lugar acostumado. Mas o povo quis vê-los morrer no anfiteatro pela espada que devia atravessar seus corpos. E eles espontaneamente se levantaram e entraram na arena. Antes beijaram-se com o ósculo da paz. Todos imóveis e em silêncio se deixaram traspassar pelo aço. Perpétua como sentisse que a espada não ia feri-la no lugar certo, com suas próprias mãos levou a ponta à garganta para que o gladiador a ferisse certeiramente.

Vida monástica no cristianismo

A vida monástica no cristianismo surgiu como uma forma de busca por uma vida de maior consagração a Deus, com o objetivo de se afastar do mu...