21/03/2013
Do Tratado sobre a fé de Pedro, de São Fulgêncio de Ruspe, bispo (Séc. VI)
Cristo ofereceu-se por nós
Os sacrifícios das vítimas materiais, que a própria Santíssima Trindade, Deus único do Antigo e
do Novo Testamento, tinha ordenado que nossos antepassados lhe oferecessem, prefiguravam a
agradabilíssima oferenda daquele sacrifício em que o Filho unigênito de Deus feito carne iria,
misericordiosamente, oferecer-se por nós.
De fato, segundo as palavras do Apóstolo, ele se entregou a si mesmo a Deus por nós, em
oblação e sacrifício de suave odor (Ef 5,2). É ele o verdadeiro Deus e o verdadeiro sumo-
sacerdote que por nossa causa entrou de uma vez para sempre no santuário, não com o sangue
de touros e bodes, mas com o seu próprio sangue. Era isto que outrora prefigurava o sumo-
sacerdote, quando, uma vez por ano, entrava no santuário com o sangue das vítimas.
É Cristo, com efeito, que, por si só, ofereceu tudo o quanto sabia ser necessário para a nossa
redenção; ele é ao mesmo tempo sacerdote e sacrifício, Deus e templo. Sacerdote, por quem
somos reconciliados; sacrifício, pelo qual somos reconciliados; templo, onde somos
reconciliados; Deus, com quem somos reconciliados. Entretanto, só ele é o sacerdote, o
sacrifício e o templo, enquanto Deus na condição de servo; mas na sua condição divina, ele é
Deus com o Pai e o Espírito Santo.
Acredita, pois, firmemente e não duvides que o próprio Filho Unigênito de Deus, a Palavra que
se fez carne, se ofereceu por nós como sacrifício e vítima agradável a Deus. A ele, na unidade
do Pai e do Espírito Santo, eram oferecidos sacrifícios de animais pelos patriarcas, profetas e
sacerdotes do Antigo Testamento. E agora, no tempo do Novo Testamento, a ele, que é um só
Deus com o Pai e o Espírito Santo, a santa Igreja católica não cessa de oferecer em toda a terra,
na fé e na caridade, o sacrifício do pão e do vinho.
Antigamente, aquelas vítimas animais prefiguravam o corpo de Cristo, que ele, sem pecado,
ofereceria pelos nossos pecados, e seu sangue, que ele derramaria pela remissão desses mesmos
pecados. Agora, este sacrifício é ação de graças e memorial do Corpo de Cristo que ele ofereceu
por nós, e do sangue que o mesmo Deus derramou por nós. A esse respeito, fala São Paulo nos
Atos dos Apóstolos: Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho, sobre o qual o Espírito Santo
vos colocou como guardas, para pastorear a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o sangue do
seu próprio Filho (At 20,28). Antigamente, aqueles sacrifícios eram figura do dom que nos
seria feito; agora, este sacrifício manifesta claramente o que já nos foi doado.
Naqueles sacrifícios anunciava-se de antemão que o Filho de Deus devia sofrer a morte pelos
ímpios; neste sacrifício anuncia-se que ele já sofreu essa morte, conforme atesta o Apóstolo:
Quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado (Rm 5,6). E
ainda: Quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com ele pela morte do seu Filho
(Rm 5,10).
Fonte:
Liturgia das Horas
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